A Sombra da Pirâmide Invertida
Dia 75 e Alvorecer do Dia 76 — A Pirâmide Invertida
A noite caiu pesada sobre a mata retorcida de Athas, cada folha seca rangendo como metal sob o toque do vento quente. Diante deles, a Pirâmide Invertida erguia-se como uma afronta à gravidade, um colosso de pedra negra cravado no solo como se o próprio mundo tivesse sido virado do avesso.
M'uamba e Tao'ka ajoelharam-se diante da estrutura. O ar vibrava com a tensão do ritual, sílabas arcanas e psíquicas escapando de seus lábios e sendo engolidas pela pedra. A escuridão parecia viva, faminta.
Adnaan não orava. Vigiava.
Seus olhos amarelos, destacados pela pintura de guerra vermelha, rasgavam a penumbra. Ao seu lado, Garra da Noite eriça o pelo azulado, um rosnado vibrando em sua garganta — não de medo, mas de aviso. O cheiro de morte antiga invadiu as narinas do batedor.
— Irmão… eles vêm — sussurrou Adnaan, a voz calma de quem nunca deixou a caçada. — Cercam-nos pela mata.
Das sombras das árvores retorcidas, silhuetas esquálidas emergiram. Eram elfinas na forma, mas desprovidas de vida, esqueletos animados por uma vontade profana, empunhando cajados corrompidos encimados por orbes de obsidiana pulsante. Onde pisavam, a vegetação murchava, rejeitada pela própria terra.
O ataque foi uma tempestade. Os Ossos Feiticeiros ergueram seus focos e o ar estalou com o cheiro de ozônio e carne queimada. Rajadas de energia rasgaram a noite.
— Aceleração! — A voz de M'uamba trovejou, soturna, enquanto ele erguia o cajado dourado. Uma onda de energia roxa banhou o grupo, distorcendo o tempo ao redor deles.
Tao'ka e Werner tornaram-se borrões. O meio-gigante avançou como uma avalanche de bronze, seu escudo desviando raios que teriam incinerado um homem comum. Tao'ka, rindo sob a máscara, desapareceu em um lampejo azul, reaparecendo entre os inimigos com suas cimitarras cantando a canção da morte. Adnaan fundiu-se às sombras, seu arco disparando flechas que eram mais luz do que matéria.
Quando a última pilha de ossos desmoronou em cinzas, o silêncio retornou, pesado. Werner, sem dizer palavra, tocou o ombro de Tao'ka e Adnaan, a energia biopsiônica fluindo de suas mãos imensas para fechar os cortes da batalha.
A pirâmide, satisfeita com o tributo de violência, abriu-se.
A luz azulada das gemas era a única coisa que não parecia hostil na sala circular de mármore polido. Cinco alcovas. Cinco gemas pulsantes. E, no chão, manchas de cinzas que contavam a história dos tolos que vieram antes.
— Desintegração… poderosa — murmurou M'uamba, analisando o pó com a frieza de um acadêmico examinando um espécime. — Alguém tocou onde não devia.
Tao'ka, impulsionado por sua curiosidade mercenária, aproximou-se perigosamente de uma das pedras. A luz oscilou, tornando-se agressiva, quente. A morte se preparou para saltar.
— Não!
A mão de Werner, grande como um escudo, fechou-se no ombro do guerreiro psíquico e o puxou de volta com uma força que faria inveja a um mekillot. O ar crepitou onde Tao'ka estivera um segundo antes. O guerreiro ajustou a máscara, o humor ácido falhando por um breve instante.
— Obrigado, grandão. Quase virei poeira de varrer.
Seguindo o instinto estóico de Werner, posicionaram-se diante das gemas sem tocá-las. A pirâmide respondeu à deferência. O teto se abriu, e a plataforma os elevou para a escuridão acima.
A biblioteca cheirava a tempo perdido. Prateleiras infindáveis guardavam apenas pó de livros que não resistiram aos séculos. Mas para M'uamba, aquilo era um banquete. Seus olhos brilharam ao encontrar tomos protegidos por magias antigas, o conhecimento preservado como moscas no âmbar.
— Conhecimento sobrevivente… — sussurrou o elfo, tocando uma placa prateada. A visão o atingiu com a força de um soco físico.
Cinco artefatos. A Esfera do Dragão. O perigo estava ali, pulsando nas paredes de pedra negra. Ele guardou a informação, o rosto sério obscurecido pela sombra do capuz.
A sala seguinte, no entanto, não guardava sabedoria, mas um aviso brutal. No centro, o corpo mumificado de um halfling jazia esmagado, achatado contra o chão de mármore manchado de sangue seco. Não havia armadilha visível, apenas um anel solitário brilhando no dedo da mão esfacelada.
— Halflings não costumam ser tão… bidimensionais — comentou Adnaan, o estômago revirando com a lembrança de tumbas passadas.
Antes que pudessem investigar, o som de pedra roçando em pedra preencheu o salão. Duas estátuas de obsidiana, perfeitas e terríveis, abriram olhos que queimavam como brasa. Fragmentos de vidro negro começaram a orbitar seus corpos, um escudo de lâminas vivas.
A batalha foi um caos de vidro e fúria.
Adnaan tentou se fundir ao cenário, mas sua magia falhou, o arco recusando-se a materializar. Xingou baixo, recuando enquanto sua camuflagem se desfazia. M'uamba disparou setas de força pura, mas elas se estilhaçaram inofensivas contra a pele de vidro vulcânico dos golens.
Tao'ka não hesitou. Teleportou-se para o flanco do primeiro monstro, suas lâminas azuis encontrando frestas invisíveis na carapaça negra.
— Werner! Agora! — gritou o espadachim.
O meio-gigante deu um passo à frente. Seu braço recuou, os músculos sob a armadura de bronze retesados como cabos de aço.
— Vai!
O martelo voou. Um trovão roxo cruzou a sala. O impacto foi avassalador, explodindo o peito do golem em uma chuva de estilhaços negros. A arma girou no ar e retornou à mão estendida de Werner com um estalo seco.
Mas o segundo golem era implacável. Seu punho desceu sobre Werner como um meteoro. O escudo aguentou, mas o impacto reverberou pelos ossos do gigante. Cristais cortantes giraram ao redor deles, um vórtice de dor.
Adnaan, finalmente em sintonia com a magia do lugar, materializou seu arco. Uma flecha de pura eletricidade cantou no ar, abrindo uma cratera brilhante no ombro da criatura.
— Deixa comigo! — Tao'ka surgiu da fumaça e dos cacos.
Com um movimento que foi mais dança do que golpe, ele girou. Suas espadas, famintas, drenaram a energia vital da pedra animada. O golem vacilou e desabou, inerte.
No silêncio que se seguiu, M'uamba recolheu o anel do halfling. Mais tarde, sob a proteção da noite, ele ouviria a voz. Uma inteligência presa, fria e julgadora. Ela sondou a mente do feiticeiro, tocou a mácula da magia profanadora e recuou com nojo. M'uamba permaneceu impassível. Ele não precisava da aprovação do anel, apenas de seu poder.
O dia 76 nasceu frio dentro da pirâmide.
Subindo as escadas, o grupo encontrou uma passagem secreta que levava a uma sala onde a temperatura despencava. Três estátuas de mármore aguardavam na penumbra gélida. Werner e Tao'ka prepararam as armas, mas Adnaan, invisível e silencioso como um espectro, deslizou à frente.
Seus olhos viram o que a pedra tentava esconder. Não eram estátuas. Eram a morte à espreita, disfarçada de arte.
Ele recuou lentamente, surgindo ao lado do mago como um sussurro.
— Fiquem imóveis — ordenou, a voz mal movendo o ar. — M'uamba… prepare a maior bola de fogo que tiver. Na sala. Agora.
Notas de Rodapé:
- A Esfera do Dragão: Um dos cinco artefatos revelados pela visão na biblioteca, capaz de controlar ou banir dragões e Reis-Feiticeiros.
- O Anel: Contém a alma de um antigo preservador ou entidade que rejeita a magia profanadora (Defiling) usada por M'uamba.