O Fogo que Sangra e o Guardião de Areia
Dia 77 (Segunda Parte) — O Quinto Nível
A conversa foi curta, objetiva — como tudo precisava ser naquele lugar onde o silêncio era a única defesa.
M'uamba retirou o anel de prata, sentindo a frieza do metal deixar sua pele. Ele o estendeu para Werner.
— Sua mente é um forte, mas até fortes precisam de muros — disse o feiticeiro, a voz grave e sem floreios. — Use-o. O que quer que esteja aqui dentro, não gosta de mim. Talvez goste de você.
Werner aceitou o anel, seus dedos grossos contrastando com a delicadeza da joia. Ele assentiu, estoico.
— Se ele falar demais, eu peço para ele ficar quieto.
Tao'ka e Adnaan, inquietos, já se moviam.
— Vamos ver o que essa pedra esconde — murmurou Adnaan para Garra da Noite, que respondeu com um rosnado baixo e quase inaudível.
Desceram primeiro. As escadas levavam a um corredor onde o ar parecia ter peso físico. Adnaan parou, seus olhos varrendo a alvenaria com a precisão de um predador. Ele tocou uma pedra que parecia idêntica a todas as outras.
— Aqui — sussurrou.
Uma passagem secreta se abriu, revelando o poço do elevador do segundo nível.
— Um atalho — constatou Tao'ka, a máscara escondendo um sorriso de aprovação. — Útil para fugir. Ou para sermos cercados. Gosto das probabilidades.
Voltaram e subiram. O quarto nível trouxe uma mudança na atmosfera. Não havia cheiro de morte, mas uma pressão estática que fazia os pelos da nuca se eriçarem. Diante deles, uma sala dominada por uma orbe de latão flutuando no teto, irradiando magia pura.
— Magia pesada — alertou M'uamba, ficando para trás.
Adnaan não caminhou; ele saltou pelas sombras. Teleportou-se para a porta oposta, mas no instante em que seus pés tocaram o chão, a orbe reagiu. O ar se solidificou. Uma gravidade esmagadora, suficiente para transformar ossos em pó, desabou sobre ele.
— Ugh!
Adnaan trincou os dentes, os joelhos dobrando sob o peso de uma montanha invisível. As sombras de sua capa se agitaram, solidificando-se para segurar o impacto. Com um esforço supremo, ele se lançou para o corredor.
Tao'ka surgiu ao seu lado num piscar de olhos azuis, ignorando a armadilha com um teleporte perfeito.
— Você parece um pouco mais baixo, amigo — zombou o guerreiro psíquico, batendo no ombro do batedor. — A gravidade não lhe cai bem.
Mais acima, no quinto nível, encontraram itens. Tao'ka trouxe M'uamba via teleporte. O elfo, com a ganância acadêmica brilhando nos olhos, varreu a sala.
— Lixo… lixo… — murmurava, descartando ouro como se fosse cascalho, até parar diante de um bastão de ferro. — Ah. Isso sim. Isso tem poder.
Reunidos, o grupo decidiu não mais evitar o óbvio. Teleportaram-se para a sala central do quinto nível.
O calor os atingiu como uma parede física. No centro, um poço de magma pulsava como uma ferida aberta na terra.
— Está quente — comentou Werner, desnecessariamente, ajustando o escudo.
— O magma… ele não está agindo como pedra derretida — observou Adnaan, a flecha já no arco.
Dois elementais emergiram, formas de fogo líquido e ódio primordial.
— Cuidado! — gritou Tao'ka.
Adnaan disparou. A flecha explodiu no peito do primeiro elemental, espalhando lava. A criatura rugiu — um som de pedra partindo — e lançou uma bomba de magma.
A explosão envolveu o grupo. M'uamba praguejou em élfico antigo enquanto protegia o rosto. Garra da Noite ganiu, o cheiro de pelo queimado misturando-se ao enxofre, e sumiu na invisibilidade.
— Eles sangram fogo! — gritou Werner, avançando contra o monstro que escorria lava.
Tao'ka teleportou-se para o flanco. — Vamos esfriar você um pouco! — Suas lâminas cortaram, separando magma da essência mágica que o animava.
O segundo elemental não perdoou. Outra explosão. M'uamba, cercado por chamas, ergueu o cajado.
— Volte para a pedra!
A magia retorceu a forma do elemental, mas ele resistiu, instável. Werner aproveitou a brecha. Seu martelo desceu num arco roxo e brutal. O impacto desfez a criatura em uma poça inerte.
Restava um. Adnaan e Garra da Noite, o lobo invisível guiando a mira do dono, atacaram em uníssono. A flecha final atravessou o núcleo do monstro, dissipando-o.
O silêncio voltou, quebrado apenas pela respiração ofegante do grupo.
— Acabou? — perguntou Werner.
M'uamba olhava para o poço, os olhos estreitos.
— Não. Isso não é um buraco. É uma porta.
Um terceiro elemental surgiu, maior, mais furioso.
— Outro! — alertou Adnaan.
O batedor disparou e, num movimento fluido, lançou-se de costas na sombra da parede, reaparecendo do outro lado da sala. A criatura girou, confusa. Werner esmagou seu crânio flamejante e M'uamba finalizou com uma saraivada de mísseis mágicos que apagaram o fogo profano.
Saíram da sala, trancando a porta atrás de si. O descanso no corredor foi tenso.
— Aquela porta a oeste — apontou Tao'ka. — Está me chamando.
Ele a abriu.
A sala era vasta, dominada por uma fonte de água parada. Mas o que prendeu o olhar de M'uamba foram as alcovas ao norte. Em uma delas, repousava uma esfera de aço polido.
— Pela areia… — o sussurro do feiticeiro foi carregado de temor e desejo. — A Esfera do Dragão.
Mas a pirâmide não entregava seus tesouros de graça.
O chão tremeu. De um canto escuro, uma forma de pesadelo se ergueu. Um inseto gigante, feito de obsidiana e pedras preciosas, com seis metros de pura violência mineral.
— Guardião! — gritou Adnaan.
A criatura avançou, e com ela, uma tempestade de areia se levantou dentro da sala, engolindo a luz, o som e a esperança.
Notas de Rodapé:
- A Orbe de Gravidade: Uma armadilha mágica de defesa passiva, típica de construções da Era Verde ou anteriores.
- O Poço de Magma: Identificado por M'uamba como um portal planar para o Plano Elemental do Fogo (ou o Mar de Limo incandescente).