O Labirinto do Morto Antigo

Dia 76 — O Nível Superior da Pirâmide

A ilusão desmoronou antes mesmo de se formar completamente. Para olhos destreinados, eram estátuas de mármore; para Adnaan, cuja vida dependia de distinguir a pedra do predador, eram mentiras. O cheiro de podridão seca e a rigidez antinatural gritaram em seus sentidos.

— Agora.

A palavra foi o gatilho. O cajado de M'uamba brilhou, não com a luz roxa habitual, mas com o laranja furioso de um sol moribundo. A bola de fogo nasceu pequena, um ponto de aniquilação, e floresceu em um cataclismo contido.

A explosão varreu a sala. Onde havia mármore falso, agora restavam apenas cinzas e a verdade nua: dois thri-kreen mortos-vivos, suas carapaças rachadas revelando carne mumificada, e entre eles, flutuando com a arrogância dos imortais, um Kaisharga. O lich do deserto.

Werner não esperou a fumaça baixar. O meio-gigante avançou como um aríete, seu martelo desenhando um arco de eletricidade roxa que colidiu contra o primeiro insetoide. O som de quitina partindo foi nauseante. Mas o Kaisharga apenas ergueu uma mão esquelética, e a realidade obedeceu.

O espaço dobrou-se sobre si mesmo. Werner e Tao'ka, a vanguarda do grupo, simplesmente deixaram de existir.


Para eles, o mundo tornou-se um corredor infinito de ângulos errados. Werner correu, mas o chão parecia esticar-se. Tao'ka tentou focar sua mente, mas as paredes sussurravam loucuras de um tempo esquecido. Estavam presos no labirinto da mente do morto.


Na sala real, o Kaisharga voltou suas órbitas vazias para Adnaan. O batedor sentiu o ar congelar em seus pulmões. Um toque gélido, invisível e profano, tentou invadir seu peito, buscando a chama de sua vida para apagá-la. Adnaan trincou os dentes, seus músculos retesados sob a pintura de guerra.

Minha alma é minha, — rosnou ele, a vontade de ferro da tribo rechaçando a intrusão. As sombras ao seu redor agitaram-se, protegendo-o.

Mas M'uamba não teve a mesma sorte. O frio da morte o atingiu, e o feiticeiro caiu de joelhos, seus membros pesados como chumbo, a paralisia rastejando por suas veias. Ainda assim, com a teimosia dos que lidam com o proibido, ele forçou mais uma conjuração. O fogo respondeu, queimando a carne morta dos inimigos.

Então, o labirinto cedeu.

Werner rompeu a barreira dimensional com um rugido, o escudo erguido no instante exato para aparar as garras do thri-kreen restante. Faíscas voaram.

E Tao'ka… Tao'ka estava furioso.

Um pulso psíquico distorceu o ar. O guerreiro reapareceu, não onde estava, mas atrás do Kaisharga. Suas cimitarras azuis eram borrões de luz.

— Você errou de dimensão, cadáver — sussurrou.

Teleportando-se novamente para o centro do combate, Tao'ka tornou-se um furacão. Suas lâminas não apenas cortavam carne; elas bebiam poder. Cada golpe que conectava drenava a magia que sustentava o morto-vivo, curando o guerreiro e enfraquecendo o lich.

O Kaisharga, sentindo seu poder esvair-se, tentou um último ataque desesperado, disparando mísseis de força pura. Mas era tarde. Com um movimento cruzado, as espadas de Tao'ka ceifaram sua conexão com o mundo físico. O monstro desfez-se em poeira e eco.


Com o silêncio restaurado, encontraram entre as cinzas um colar de ouro e prata. M'uamba o recolheu, sentindo o peso da história antiga no metal.

A exploração continuou, mas a pirâmide não perdoava descuidos.

Em uma sala de ladrilhos coloridos que pulsavam com magia latente, Adnaan tentou encontrar um caminho seguro. O erro foi punido instantaneamente. A gravidade inverteu-se violentamente ao pisar em um ladrilho verde, lançando-o contra o teto. Preso e desorientado, o batedor precisou recorrer às sombras, teleportando-se para a segurança de um corredor lateral.

Lá, encontrou estátuas de animais quiméricos e o calor sufocante de um poço de lava no andar superior. Mas a prudência do deserto falou mais alto: retornou.

A última porta revelou um horror diferente. Uma sala gélida, coberta por um tapete de fungos que parecia devorar o calor. Instintivamente, o fogo foi usado — e o fungo cresceu, alimentando-se da energia térmica, expandindo-se para engolir o grupo.

— Fogo não! — gritou M'uamba, a mente clareando. — Ele quer calor!

O feiticeiro mudou a tática. O ar estalou, e um raio de frio absoluto partiu de seu cajado. O fungo, privado de sua fonte de alimento e atacado por seu oposto, cristalizou-se e morreu, desfazendo-se em pó gelado.

Entre os restos, recuperaram uma pedra mágica flutuante e uma ânfora de óleo etéreo. Feridos, cansados, mas vivos, os heróis de Athas contemplaram a escuridão dos corredores. A Pirâmide Invertida ainda tinha muito a mostrar.


Notas de Rodapé:

  • Kaisharga: Uma forma poderosa de morto-vivo em Athas, similar a um lich, que busca a imortalidade através de rituais profanos.
  • O Labirinto: Uma manifestação psíquica ou mágica de banimento, comum em defesas de eras passadas.