O Guardião de Areia e os Ecos do Âmbar
Dia 76 (Segunda Parte) e Dia 77 — O Salão do Guardião
O salão se abriu diante deles como a garganta de um colosso antigo. A fonte ao centro murmurava água fria, um contraste quase irônico com o ar pesado, seco, carregado de eletricidade arcana que fazia os pelos de Garra da Noite se eriçarem.
Antes que qualquer palavra fosse dita, Adnaan já havia se movido.
O arco surgiu em suas mãos como uma extensão natural do corpo — sombras se dobrando ao redor do membro negro e das runas elétricas. A flecha partiu silenciosa, atravessando a carapaça do guardião com um estalo seco de metal rachando. No mesmo instante, o batedor desapareceu, reaparecendo atrás de um pilar, fundido às sombras.
Do lado oposto, Tao'ka fez o mesmo. Um lampejo psíquico, um deslocamento quase imperceptível, e ele já estava oculto, lâminas em posição, o sorriso torto escondido pela máscara.
— Acorda, belo adormecido — sussurrou o guerreiro psíquico.
E o escaravelho gigante despertou.
A criatura — um insetoide colossal de obsidiana, metal antigo e gemas incrustadas — ergueu as patas e fez o salão rugir. Uma tempestade de areia explodiu ao redor, engolindo colunas, chão e teto. A visão se perdeu quase por completo.
Quase.
Adnaan e Tao'ka ainda enxergavam. Sentiam. O primeiro pelos instintos treinados na caça; o segundo pela leitura constante do campo psíquico.
O guardião percebeu isso. Um pulso mental atravessou o salão como um grito silencioso.
— Aaargh!
M'uamba levou a mão à cabeça e cambaleou, atordoado, o sangue escorrendo do nariz. A mente disciplinada do feiticeiro foi momentaneamente estilhaçada.
O escaravelho avançou, rápido demais para algo daquele tamanho. Suas garras rasgaram o ar em direção a Tao'ka. Uma delas encontrou carne.
— Porra… isso arranha! — rosnou Tao'ka, já se desfazendo em luz psíquica antes que as quelíceras se fechassem sobre ele.
Os gritos chegaram aos ouvidos de Werner como um chamado de guerra. O meio-gigante irrompeu pelo salão, martelo em mãos, escudo erguido, ignorando areia, dor e magia. O golpe que desceu em seguida fez a criatura recuar um passo, rachando ainda mais a couraça negra.
Adnaan voltou a agir. Outra flecha. Outro impacto certeiro. O arqueiro reapareceu atrás da fonte central, usando o mármore como cobertura.
Tao'ka surgiu logo depois, num piscar de olhos, atacando direto os olhos do escaravelho. A lâmina esquerda encontrou o alvo. Um estalo vítreo.
— Fica cego, desgraçado! — provocou Tao'ka, teletransportando-se para longe.
O guardião respondeu com brutalidade. Avançou sobre Werner, envolvendo-o com as quelíceras gigantes, erguendo o meio-gigante do chão como se fosse uma boneca de pano. Outro ataque mental varreu o salão. Garra da Noite, ainda invisível, foi atingido em cheio, ganindo de dor psíquica.
Werner, preso, não tentou se libertar. Apenas levantou o martelo o quanto pôde.
— Quebra!
O impacto reverberou pelo salão, faíscas elétricas dançando sobre a obsidiana.
O escaravelho, agora claramente danificado, liberou seu último e mais violento pulso mental. M'uamba caiu de joelhos novamente. Werner sentiu a mente apagar por um instante — e então veio o golpe físico. As garras desceram.
O impacto foi brutal. Werner caiu, inconsciente, o corpo pesado batendo no chão de pedra, o sangue escorrendo sob a armadura rachada.
Por um instante, o mundo de Adnaan se estreitou. Ele viu o amigo cair. Viu o predador mecânico erguer-se para o golpe final.
E então desapareceu.
Do alto da fonte, Adnaan surgiu diretamente à frente do escaravelho, sombras explodindo ao redor de seu corpo.
— Solte meu amigo, seu maldito!
A flecha partiu antes que o eco da voz cessasse. Entrou exatamente no olho já ferido. O escaravelho gigante morreu em espasmos violentos, o corpo colapsando em uma chuva de metal e pedras preciosas.
Na mesma ação, Adnaan estendeu a mão. A força vital roubada da criatura fluiu através dele e retornou a Werner em um pulso instantâneo.
O meio-gigante respirou fundo, engasgando com o ar. Vivo.
— Da próxima vez… — resmungou Werner, tentando se levantar — …eu bato mais forte.
Enquanto o grupo descansava e contava os espólios riquíssimos do autômato, M'uamba examinou as alcovas ao norte. Câmaras de cristal âmbar guardavam tesouros: um grimório antigo, uma esfera de aço polido e… um halfling em armadura estranha, preservado em estase.
Werner, recuperando o fôlego, sentiu a presença familiar do anel em sua mão.
— Você está vivo, gigante? — A voz mental de Kibb ecoou, curiosa.
— Estou. Por pouco. O que você sabe sobre isso?
A mente do espírito se abriu. Kibb contou sua história: as escarpas a oeste, os voos de planador, a curiosidade que o matou. Falou do feiticeiro que o capturou e morreu aqui. Falou de uma voz anterior no anel, que mencionava o "arrependimento de Rajaat".
Mas quando Werner descreveu o halfling na alcova, a mente de Kibb agitou-se com uma reverência quase religiosa.
— Ancião… Progenitor… Rhulisti verdadeiro… — as palavras mentais tremiam. — Ele conhece a arte que perdemos. Ele é a chave.
M'uamba, alheio à conversa mental, abriu a primeira alcova. O grimório prometia poder. A segunda alcova se abriu, e ele segurou a esfera de aço.
— A Esfera do Dragão — sussurrou, sentindo a vibração do artefato.
O grupo se reuniu diante da última alcova. O passado estava prestes a acordar.
Notas de Rodapé:
- Rhulisti: O nome ancestral da raça halfling, da Era Azul, quando eram mestres da biotecnologia e da natureza.
- Rajaat: O Primeiro Feiticeiro, criador dos Reis-Feiticeiros e responsável pelas Guerras de Purificação que devastaram Athas.