O Calor da Mentira e o Grito do Azul
Dia 77 e Dia 78 — A Pirâmide Invertida, Nível 5
A sala das alcovas parecia respirar com o grupo.
Não era paz — era só o intervalo entre um dente e outro da armadilha. As paredes de pedra antiga guardavam o frio de eras extintas, mas o ar tinha um gosto de metal queimado, como se a própria pirâmide mastigasse magia e cuspisse cinza.
Adnaan foi o primeiro a se mover.
Sem discurso, sem olhar de despedida. Só o gesto curto para Garra da Noite — fica comigo — e o zhackal, sombra azul-escura, respondeu com uma presença silenciosa na mente do batedor: alerta, faminto, pronto.
A porta a leste abriu-se como uma ferida.
Além dela, uma sala de passagem e, adiante, a promessa de fogo: uma parede inteira de chamas erguida no corredor, alta demais para pular e larga demais para contornar. O brilho dançava com cores que pareciam certas… e ainda assim havia algo errado. A visão mentia, mas o corpo não.
Adnaan parou a um passo.
O calor tocou sua pele como mão hostil. A garganta secou. O ar cheirou a palha tostada e a pedra quente.
— Ilusão — murmurou ele, quase sem som. Não era uma opinião; era um instinto. — Mas… machuca.
Garra da Noite rosnou baixo. O rosnado não vinha do peito, vinha do mundo: o aviso de que, mesmo quando os olhos não veem, a dor vê.
Adnaan não atravessou. Não testou. Não ofereceu um dedo.
Ele puxou as sombras para si como uma capa viva e sumiu.
Do outro lado da parede, o calor ainda tentou mordê-lo — não como incêndio verdadeiro, mas como o remorso de um incêndio. Ele avançou, descobriu uma sala conhecida, um caminho que eles já haviam tomado antes. Voltou então, e o retorno lhe mostrou o detalhe que a pirâmide guardava para os curiosos: no chão, onde a ilusão queimava o ar, havia um painel.
Um segredo com bordas bem encaixadas.
Um convite.
Adnaan recuou até o grupo.
— Tem algo ali — disse, calmo. — Um painel. Mas a parede… é mentira com dentes.
M'uamba veio à frente como quem se aproxima de um texto sagrado.
Seus olhos brilhavam com uma fome que não era de comida. A túnica roxa parecia ainda mais escura sob aquela luz falsa. O cajado dourado em sua mão não tremia — mas o resto dele, por um instante, parecia menor. Um cansaço fino nos ombros. Uma presença menos firme. Como se algo, em algum lugar, tivesse puxado um fio da alma do feiticeiro.
— Se é uma ilusão com calor, então não é só ilusão — disse ele, quase satisfeito com o problema. — É uma engenharia. Ou uma crueldade.
Deram alguns passos.
E a pirâmide respondeu.
O ataque não veio como lâmina. Veio como marreta dentro do crânio.
Um golpe psíquico atravessou a sala, e por um segundo o mundo ficou longe. O som virou eco. As cores viraram água suja.
Adnaan perdeu o tempo.
Werner perdeu mais que isso.
O meio-gigante ficou imóvel, a cabeça ligeiramente inclinada, como se tivesse ouvido uma ordem que ninguém mais ouviu. O martelo em sua mão crepitou com eletricidade roxa… e, ainda assim, ele não se moveu. O corpo queria — a mente não.
Garra da Noite, por outro lado, se encolheu e passou pelo golpe como fera que conhece armadilhas: um tremor breve, um arrepio na nuca, e a consciência voltou. O zhackal mostrou os dentes para o vazio.
Porque havia algo ali.
Algo que não se via.
O ar se mexeu sem vento. A poeira se levantou em padrões que não eram naturais. Um corte apareceu no ombro de M'uamba como assinatura de uma faca invisível — e junto dele veio o pior: a sensação de algo chupando força e presença.
O feiticeiro vacilou.
Não como covarde — como quem, por um instante, tem os braços esvaziados.
A pele ônix de M'uamba ficou fria sob o calor ilusório. A voz que sempre carregava ameaça e certeza saiu mais baixa, mais rouca.
— Covarde… — sibilou ele para o nada.
A entidade invisível o atingiu outra vez — mental e fisicamente — e foi como se arrancasse dele um pedaço de músculo e um punhado de brilho no olhar. M'uamba sentiu o mundo pesar. Sentiu as palavras demorarem um pouco mais para nascer.
E então, com raiva fria, ele respondeu.
Uma bola de fogo explodiu a queima-roupa.
O clarão engoliu a sala, e por um instante o fogo verdadeiro fez o fogo falso parecer brincadeira. O cheiro de enxofre e cabelo queimando invadiu tudo. M'uamba ergueu o braço e acionou o bracelete; uma película invisível se assentou sobre ele como armadura extra, e os golpes seguintes — os que vieram do nada — encontraram resistência.
Tao'ka apareceu ao lado de M'uamba como um insulto à distância.
Um piscar azul e pronto: capuz terracota, máscara cinza, duas cimitarras vibrando com eletricidade intensa.
— Ah. Então é um inimigo que não aparece — disse ele, divertido, como se a pirâmide finalmente tivesse oferecido algo digno. — Adoro quando o mundo tenta ser esperto.
Ele girou, lâminas em arco, um assalto de redemoinho que cortou o ar onde o instinto mandava cortar. O aço cantou. A energia chiou.
E, por um segundo, o vazio sangrou.
A segunda onda veio com paciência.
Werner ainda estava preso em sua própria cabeça, arrancado do combate por uma ordem silenciosa. A torre de bronze, que costumava ser porto seguro, virou estátua.
A entidade, percebendo a lâmina e o deboche, voltou-se para Tao'ka.
O primeiro golpe errou — e o erro foi quase cômico: uma marca na pedra, um estalo no ar.
O segundo acertou.
Tao'ka sentiu como se alguém tivesse enfiado dedos frios por trás dos olhos e mexido nas engrenagens do pensamento. Não foi dor comum. Foi confusão, um pequeno atraso entre querer e fazer.
— Ei… — ele rosnou, o humor por um instante falhando. — Isso é trapaça.
M'uamba tentou responder com um disparo de feitiçaria. Um raio de energia saiu do cajado — roxo, comprimido, cruel — mas acertar o invisível era como tentar flechar um pensamento. O feitiço cortou o ar e morreu no vazio.
Foi Adnaan quem trouxe a caçada de volta.
O batedor recuperou o controle como quem morde o próprio sangue para lembrar que está vivo. Seus olhos amarelos focaram onde a poeira se movia. Onde Garra da Noite rosnava. Onde o nada tinha intenção.
Ele puxou a corda.
A flecha saiu como destino.
O impacto foi perfeito — um acerto tão limpo que, por um segundo, até a pirâmide pareceu surpresa. O vazio estremeceu. Algo invisível cambaleou.
Adnaan tentou repetir, mas o segundo disparo cortou só ar.
— Ainda tá aí — disse Tao'ka, mais irritado do que queria admitir. — Eu sinto.
Na terceira troca de fôlego, Werner voltou.
A mente do meio-gigante se desatou de onde quer que estivesse presa. Ele piscou, como quem acorda no meio de um sonho ruim. O martelo em sua mão respondeu com faíscas roxas.
Mas o corredor era apertado. A pirâmide sabia disso.
Werner arremessou o martelo mesmo assim.
A arma girou, cantando no ar como trovão controlado — e errou. Atingiu pedra. Voltou à mão com um estalo seco.
A entidade escolheu de novo Tao'ka.
Um golpe, e mais do que carne foi ferida.
A mente do guerreiro psíquico perdeu outro pedaço — e os reflexos, que sempre foram sua glória, ficaram… menos.
Os pés de Tao'ka escorregaram meio instante. O teleporte veio com uma micro-falha: um atraso quase invisível, mas suficiente para que ele praguejasse.
— Eu vou achar você — prometeu ele ao vazio. — Nem que eu tenha que cortar a sala inteira em fatias.
M'uamba disparou de novo.
Dessa vez, acertou.
A energia roxa mordeu algo que não se via, e o ar respondeu com um tremor de dor.
Tao'ka tentou aproveitar, mas suas lâminas encontraram somente vento.
Adnaan não desperdiçou o momento.
Ele mirou onde a criatura precisava estar para atacar. Onde a poeira cedia. Onde Garra da Noite, invisível como sombra viva, prendia a atenção com um rosnado baixo.
A flecha atravessou o nada.
E o nada… parou.
Por um instante ninguém soube se ela fugira ou morrera. Werner arremessou de novo, acertando só ar. Tao'ka respirou, irritado. M'uamba fechou os olhos e ouviu — como quem escuta um livro sendo fechado.
Então veio o silêncio.
O silêncio que significa: terminou.
M'uamba examinou a sala como quem examina um mecanismo de tortura.
— Está no teto — disse ele.
Lá em cima, presa à pedra como um olho de vidro, havia uma esfera de cristal: o coração da ilusão e do calor.
Adnaan ergueu o arco.
Não hesitou.
Duas flechas, rápidas.
O cristal quebrou.
A parede de fogo desapareceu como mentira desmascarada. O ar esfriou de um jeito estranho — não porque ficou frio, mas porque a sensação de queimadura foi tirada, e o corpo percebeu o que estava aguentando.
Werner levantou o painel no chão. Sob ele, tesouros embrulhados como segredo: uma tiara valiosa, duas poções, três cristais psiquicamente ativos e uma seda que parecia… viva, ou ao menos lembrava vida — uma seda que não tocava só a pele, mas a mente.
— Dá pra comprar uma cidade com isso? — perguntou Tao'ka, tentando rir e falhando um pouco.
— Não — respondeu M'uamba, automático. — Mas dá pra comprar um destino.
Voltaram às alcovas.
M'uamba ergueu sua proteção, e o grupo descansou dentro de um casulo mágico, como insetos tentando se esconder de um predador maior.
Mas o descanso não devolveu o que foi roubado.
E isso foi pior do que qualquer corte.
O Dia 78 chegou sem misericórdia.
— Então vamos acordá-lo — disse Werner, por fim. Simples. Direto. Como se “acordar um morto de era perdida” fosse só mais uma tarefa.
A câmara de estase esperava.
M'uamba tocou a magia do campo como quem toca uma ferida. Tentou desativar. Conseguiu… pela metade.
O brilho multicolorido tomou o halfling preso ali dentro. E quando o campo começou a se desfazer, o ar ao redor mudou.
Umidade.
Cheiro estranho.
Algo que lembrava mar, algas, vida antiga — uma memória sensorial num mundo de pó.
O corpo caiu de joelhos.
A armadura de coral vibrou e mudou de cor, como onda sob luz de sol. Os olhos se abriram e eram só azul: duas orbes luminosas sem pupila, sem branco. Um céu preso numa face.
E então o grito veio.
Não pelos ouvidos.
Pela mente.
“Ele queima! O ar seco! Cadê o Azul? CADÊ O AZUL?”
Adnaan foi o primeiro a agir.
Sem discussão. Ele empurrou um cantil para as mãos do halfling.
O estranho bebeu com desespero. E não foi só pela boca: a água desapareceu também pela pele, como se o corpo inteiro estivesse faminto.
A respiração voltou.
E com ela, perguntas que cortavam mais fundo do que lâmina.
Werner sentiu o anel esquentar — não como metal, mas como presença.
Kibb.
A voz que só ele ouvia, até então, falou com uma urgência reverente.
“Ancião! Mestre das Ondas! Não se desespere! Estamos aqui para te ajudar!”
E, pela primeira vez, o resto do grupo ouviu também.
O halfling de coral olhou para o dedo de Werner.
O pensamento veio como água fria na nuca.
“Andarilho dos ventos? Por que sua mente está presa nesse… círculo de metal morto? E por que o mundo está MORTO?”
Werner não soube como responder, mas Kibb respondeu por ele.
“Ancião… se passou mais uma era. O Verde se foi. O que restava do oceano se foi. Só resta pó.”
O lamento que se seguiu não teve som. Teve peso.
“Se foi? O oceano… se foi?”
O halfling se levantou.
E o grupo sentiu a umidade do ar ser sugada para ele. Como se a presença dele drenasse o pouco que Athas ainda permitia.
“Quem fez isso? O Primeiro Feiticeiro? Rajaat secou o mundo?”
Kibb hesitou, e a hesitação foi um tremor na mente de Werner.
“Ancião… só sei as lendas… mas os campeões do Feiticeiro… suas guerras… destruíram a terra… no final eles traíram o Feiticeiro, mas isso foi depois… tudo já estava seco…”
O halfling ficou imóvel.
E quando falou de novo, a palavra era faca.
“Eu só sei que EU FALHEI. Acreditei no Feiticeiro, dormi para não ver a necessária guerra e destruição que ele disse que seria necessária para restaurar o Azul, e acordei em uma TUMBA.”
Ele olhou para o grupo.
Pena.
Nojo.
E a frase que selou o abismo entre eras:
“E essas… coisas. Esses mutantes. Andarilho, eles são seus carcereiros, ou seus bichos de estimação?”
Tao'ka fez um som curto, entre riso e indignação.
— Se eu fosse bicho de estimação, eu morderia — disse ele, a piada mais afiada do que o normal, talvez porque algo nele ainda estava lento. — E eu mordo caro.
Adnaan não respondeu com humor.
Sua mão foi, instintiva, ao arco. Não para ameaçar — para proteger. Garra da Noite, invisível, encostou a presença na mente dele como quem diz: se ele atacar, eu rasgo.
M'uamba observou Pahn-Tu como se observasse um artefato vivo… e como se, ao mesmo tempo, quisesse arrancar dele cada segredo.
Werner, por fim, falou. Não alto. Não bonito.
— A gente não te acordou pra te matar.
Simples.
Como um juramento.
E a pirâmide, acima deles, continuou respirando.
Notas de Rodapé (referência de mesa):
- XP da sessão: 70.000 (17.500 para cada).
- Tesouro: tiara valiosa; 2 poções; 3 cristais psiquicamente ativos; seda psíquica valiosa.
- Sequelas registradas: M'uamba (Força -1, Carisma -4); Tao'ka (Inteligência -2, Destreza -4).