O Julgamento do Azul
Dias 78 a 81 — Entre a Pirâmide Invertida e a Selva
O halfling de armadura de coral — Pahn-Tu — terminou a frase como se cuspisse areia.
“E essas… coisas. Esses mutantes. Andarilho, eles são seus carcereiros, ou seus bichos de estimação?”
A palavra mutantes ficou pendurada na mente do grupo como um espinho.
Adnaan não ergueu a voz. Nem precisava.
Ele apenas deu um passo à frente, o lenço bege escondendo metade do rosto, os olhos amarelos fixos nos dois sóis azuis que eram os olhos do Rhulisti. Garra da Noite — invisível, mas presente como um frio no fundo do pensamento — se moveu com ele.
— Nem uma coisa nem outra — disse Adnaan, baixo. — A gente achou o anel. A gente achou o Andarilho. A gente… escolheu abrir a porta.
Werner intercedeu, como sempre fazia quando a tensão ameaçava virar briga.
O meio-gigante parecia ainda maior naquele momento, uma muralha de bronze respirando devagar, como se o mundo inteiro precisasse acompanhar seu ritmo para não desabar.
— Eu me afeiçoei ao Kibb — disse ele, simples, sem vergonha nenhuma. — Ele falou comigo quando eu precisava. Eu quero ajudar.
O anel em seu dedo vibrou com uma presença antiga.
Kibb.
Não foi voz — foi vento dentro da mente.
“Ancião… ele é bom. Forte. Não como os antigos, mas… bom.”
Pahn-Tu olhou para Werner como se olhasse para um instrumento malfeito, mas interessante.
“Alguns de nós renasceram como gigantes.” A ideia veio carregada de um cansaço antigo. “Mas você… você é novo. O Renascimento não fez isso. Isso tem cheiro de feitiçaria tentando imitar Arte.”
O julgamento não era só ofensa.
Era diagnóstico.
Adnaan sentiu o peso do olhar cair, por um instante, sobre M'uamba e Tao'ka.
O elfo de túnica roxa estava de pé, mas não inteiro. Desde o ataque invisível da pirâmide, havia um vazio nos braços, um tremor fino que ele escondia com orgulho e raiva. Sua voz continuava soturna, mas a presença — aquela autoridade arcana que preenchia salas — estava… menor.
Tao'ka, por sua vez, ainda se movia rápido, mas com micro-atrasos que só ele percebia. E ele odiava perceber.
Adnaan não pediu com humildade. Pediu como quem pede água no deserto.
— Ajuda a reverter isso — disse ele, sem rodeios.
Pahn-Tu fechou os olhos por um instante. A umidade do ar pareceu se arrastar na direção dele.
“Eu sinto o dano.” A telepatia veio como água fria na nuca. “Vocês foram mordidos na essência vital. Eu sei como costurar isso de volta.”
M'uamba prendeu a respiração — não por esperança, mas por cálculo.
E então veio a condição.
“Depois.”
O peso da palavra fez o grupo estremecer.
“Vocês me levam aos penhascos onde o povo do Andarilho vivia. Lá talvez ainda exista quem lembra um pouco da Arte. Eu preciso de um laboratório. Um lugar para reconstruir.”
A imagem mental que acompanhou a palavra laboratório não era mesa e vidro.
Era coral crescendo em espiral.
Era vida sendo moldada como argila.
Era o mundo úmido e azul que Athas havia esquecido.
“Com um laboratório, eu posso fazer crescer um novo corpo para Kibb.”
Werner apertou o punho, como se segurasse um pedaço de futuro.
“Mas para colocar uma mente em carne nova… eu preciso de um feiticeiro.”
O olhar de Pahn-Tu — aquela sensação de mar profundo — virou-se para M'uamba.
“Você.”
M'uamba ergueu o queixo, ofendido pelo tom de ferramenta, mas interessado pelo peso da promessa.
— Eu não sirvo — ele disse, e havia ferro na frase.
Pahn-Tu respondeu com uma calma cruel.
“Você deu um simulacro de vida a um artefato da minha Arte.”
Ele apontou, com um gesto mínimo, para a capa de camuflagem de Adnaan.
“Então você deve servir.”
Adnaan, antes que a discussão nascesse, falou de sua saga: a tribo, as lendas de terra verde, as montanhas que cortavam o mundo.
Kibb, do anel, foi mais direto.
“O cerrado que ele busca fica entre as montanhas e os penhascos do meu povo.”
Isso, pelo menos, fez o Azul dentro de Pahn-Tu mudar.
A repulsa virou… intenção.
“Então eu vou com vocês.”
E foi assim que o grupo deixou a Pirâmide Invertida: não só com tesouros e sequelas, mas com um juiz da Era Azul caminhando ao lado deles — e julgando cada respiração seca como se fosse um crime.
A selva era outra prisão.
Não de pedra, mas de vida.
O ar era úmido, pesado, cheio de cheiros que grudavam na pele: folhas esmagadas, lama velha, flores que pareciam prometer veneno. O calor não vinha como fogo direto — vinha como mão constante, empurrando, lembrando, exigindo.
Pahn-Tu se movia como alguém que não pertencia ali.
A cada passo, o grupo sentia a umidade do ar se ajeitar ao redor dele, como se o mundo tentasse, involuntariamente, pedir desculpas. Às vezes a garganta de Adnaan secava de repente; não era o vento — era o Rhulisti bebendo o que podia sem perceber.
Na noite, dentro da bolha de proteção de M'uamba, o grupo descansou.
E o descanso não devolveu o que lhes foi roubado.
M'uamba acordou com os braços ainda vazios.
Tao'ka acordou com a mente ainda ligeiramente atrasada.
Werner não reclamou. Só olhou para o anel e, sem dizer nada, prometeu por dentro que aquilo iria mudar.
No fim do Dia 79, encontraram viajantes.
Reptilianos.
Pterrans.
Eles surgiram na trilha como quem não tenta se esconder: passos firmes, peles escamadas refletindo a luz quebrada da selva, cargas amarradas com cuidado. Não havia hostilidade — só curiosidade.
Werner e Tao'ka reconheceram o tipo de gente que a estrada traz.
— Já vi vocês em Cevarra — disse Werner, com a gentileza estranha de um gigante que não quer briga.
O líder pterran inclinou a cabeça, olhos avaliando armadura e magia.
— Cidade de pedra. Cheiro ruim. Mas paga bem — respondeu, num tom seco.
Tao'ka deu um passo, o capuz terracota cobrindo o sorriso.
— A gente também tem esse problema. Cheiro ruim e contas.
O pterran riu com um som que era quase um estalo.
Perguntaram o que o grupo fazia ali.
O grupo respondeu pouco.
Adnaan respondeu menos.
M'uamba respondeu nada.
E Pahn-Tu observou tudo em silêncio… até que, por dentro, comentou como quem avalia uma espécie nova.
“Interessantes.” A telepatia veio sem emoção. “Não são obra do Renascimento. Foram criados por outra coisa.”
— A vida segue seu curso, Pahn-Tu. Com ou sem você — disse o caçador, com que tem plena consciência que o antigo não sabia de todas as coisas.
E seguiram.
Conversando com os Pterrans
O Dia 81 começou sem presságio.
A selva, às vezes, é assim: dá horas de paz só para cobrar com juros.
Quando o barranco começou a descer e a clareira se abriu adiante, Adnaan foi o primeiro a sentir.
Não foi visão.
Foi cheiro.
Foi o som de corpos pesados se mexendo no mato do outro lado do riacho.
Foi o tipo de silêncio que acontece quando predadores decidem parar de respirar para você não perceber.
Adnaan ergueu a mão.
— Espera.
Garra da Noite ficou imóvel, invisível, mas com o pelo eriçado no pensamento do dono.
O barulho veio.
E então a emboscada explodiu.
B’rohgs.
Selvagens.
Grandes, úmidos, pesados — e armados com tacapes e pedras do tamanho de cabeças. Eles surgiram da mata com grunhidos de caça, olhos brilhando de fome e raiva.
Werner atravessou o riacho como quem atravessa uma porta.
— Vem — disse ele, para ninguém e para todos.
O martelo voou.
Um arco roxo cortou o ar e o impacto fez um B’rohg recuar com um som de osso e pedra.
Do alto de um rochedo, outro B’rohg respondeu.
A pedra veio girando, assobiando.
Werner ergueu o escudo tarde demais e mesmo assim aguentou; o impacto foi uma pancada que fez o mundo tremer de leve.
M'uamba ergueu o cajado.
O que saiu dele não foi fogo.
Foi um cone de magia — amplo, brutal, com um brilho que parecia roubar cores do próprio mundo. Um arco de luz de cem pés que atravessou a clareira e tocou várias mentes de uma vez.
M'uamba e seu cone prismático
Um B’rohg resistiu.
Outro virou pó.
Dois ficaram parados, olhos vazios, catatônicos sob o comando do feiticeiro.
Outros sacudiram a cabeça, sobrevivendo por teimosia.
E então as pedras choveram.
Uma acertou M'uamba.
Outra acertou de novo.
O elfo cambaleou, o gosto de sangue subindo à boca. A túnica roxa manchou. O mundo escureceu nas bordas.
Tao'ka apareceu como um corte no espaço.
— Não — ele disse, para a pedra, para o B’rohg, para o destino.
Ele interceptou o agressor e o eliminou com dois ataques de cimitarra, lâminas azuis abrindo carne úmida como se abrissem fruta.
Outro B’rohg saltou e arremessou — errou Werner por pouco.
Adnaan já estava no alto.
Um salto de sombra e ele se teletransportou para cima de um rochedo, vento batendo na capa viva. A flecha saiu e atravessou o B’rohg que Werner havia ferido.
A criatura caiu.
Adnaan flechando os B'rohgs
E ainda assim, o cerco fechou.
Três B’rohgs em Werner — tacapes e garras — e três erros.
Um deles deixou o tacape cair.
Werner nem piscou.
Werner cercado pelos B'rohgs
Na rodada seguinte, Werner desengajou.
Não por medo.
Por escolha.
Ele recuou até M'uamba, colocando-se entre o elfo ferido e a massa úmida que avançava.
Mais uma pedra veio do rochedo e errou.
M'uamba, com o peito doendo e os braços vazios de força, ainda assim ergueu a magia como quem ergue um facão.
Outro cone.
Dessa vez, não foi pó.
Foi loucura.
Dois B’rohgs ficaram ensandecidos. Os olhos viraram tempestade. Eles se voltaram contra os próprios aliados, gritando como se tivessem percebido tarde demais que a matilha era uma mentira.
Os outros resistiram no instinto.
Tao'ka engajou e eliminou mais um B’rohg.
Tao'ka e suas espadas
Um dos ensandecidos atacou um companheiro.
Adnaan viu a abertura.
Ele posicionou Garra da Noite perto do alvo ferido — o zhackal invisível se moveu como uma sombra que já sabia onde morder — e a flecha de Adnaan terminou o serviço.
O combate começou a cheirar a sangue e lama.
Então veio o golpe.
Um tacape acertou M'uamba.
O elfo caiu com violência, como se a selva tivesse decidido que ele já tinha feito demais.
Werner reagiu com raiva silenciosa.
Ele abriu as mãos, e a cura em área se espalhou como um campo de vida: um calor contrário ao do mundo, um remendo psíquico costurando carne e devolvendo ar.
M'uamba respirou.
Adnaan sentiu a própria pele fechar feridas pequenas.
Werner puxou M'uamba para cima.
E disse, com uma firmeza que não precisava de poesia:
— Levante-se, amigo. Agora eu vou lhe proteger.
M'uamba ficou de pé.
E respondeu com fogo.
Uma bola de fogo a queima-roupa explodiu, engolindo dois B’rohgs. O cheiro de carne úmida queimando atravessou a clareira.
Um ensandecido atacou um companheiro que estava engajado com Tao'ka.
O B’rohg revidou.
Tao'ka aproveitou para atacar o que estava engajado com o ensandecido, lâminas como relâmpagos azuis cortando no ritmo do próprio teleporte.
Outro ensandecido correu e matou dois companheiros que estavam a queima-roupa.
Adnaan previu.
Não foi magia.
Foi caça.
A flecha acertou o ensandecido antes que ele escolhesse o grupo como próximo alvo.
Garra da Noite atacou o mesmo alvo, garras psíquicas rasgando o ar onde a carne já estava condenada.
A selva ficou cheia de corpos.
O outro ensandecido eliminou o próprio companheiro.
M'uamba, com a respiração pesada e o olhar ainda distante, reuniu energia e disparou um raio de feitiçaria — um golpe seco, roxo, cruel.
O ensandecido que Adnaan e Garra haviam marcado caiu.
Tao'ka acertou mais um golpe no ensandecido que estava engajado com seu alvo e quase o eliminou.
Adnaan flechou.
E eliminou o alvo de Tao'ka.
O último grunhido morreu no mato.
E o silêncio voltou — um silêncio que cheirava a ferro.
Dois B’rohgs ainda respiravam na mata, catatônicos, presos na rede mental de M'uamba.
O feiticeiro olhou para eles como quem olha para uma ferramenta descartável.
Com um comando, eles largaram armas e bens e fugiram, tropeçando na própria vergonha.
O grupo recolheu o que a matilha carregava: pedras preciosas e pepitas de ouro, pequenas promessas brilhantes em um mundo que preferia pó.
Pahn-Tu havia observado tudo.
Não ajudou.
Não se mexeu.
No fim, comentou com a mesma frieza com que julgara o mundo morto.
“Seu feiticeiro deveria ter queimado eles logo de início.”
A pausa seguinte foi quase um sorriso mental.
“Mas talvez vocês queriam se divertir com eles.”
Tao'ka soltou um riso curto.
— Divertir é uma palavra forte.
Adnaan não respondeu.
Ele só tocou a presença de Garra da Noite na mente e seguiu caminhando.
Porque a selva ainda existia.
E o Azul, agora, caminhava com eles.
Notas de Rodapé (referência de mesa):
- XP da sessão: 24.000 (6.000 para cada).
- Tesouro: 24 gp em ouro e pedras.
- Estado em aberto: Pahn-Tu prometeu reverter a debilidade de M'uamba e Tao'ka após a jornada aos penhascos do povo de Kibb.




