A Fenda do Império e a Semente da Mente

Dias 93 a 99 — A grande fenda, a margem norte e os escravagistas kreen

O primeiro silêncio entre o grupo e as falanges kreen durou pouco, mas teve peso de lâmina.

As criaturas de carapaça negra permaneciam imóveis sob o sol duro, organizadas demais para serem simples thri-kreen errantes, numerosas demais para serem apenas batedores. As lanças e placas quitinosas capturavam a luz como obsidiana polida. Atrás delas, o cerrado rangia baixo ao vento, capim seco raspando contra capim seco, como se a terra inteira prendesse a respiração.

Adnaan manteve a mão perto do arco. Garra da Noite, invisível ao lado dele, transmitia pelo elo uma fome cautelosa: cheiro de inseto, poeira quente, exoesqueleto, resina.

— Eles não estão caçando — murmurou o caçador. — Estão guardando alguma coisa.

Wener olhou para a linha de guerreiros kreen e depois para Pahn-Tu.

— Você consegue falar com eles?

O Rhulisti sequer olhou para o meio-gigante. Seus olhos inteiramente azuis estavam fixos nos kreen com uma atenção fria, quase científica.

“Conseguir, consigo. Se eles tiverem mentes capazes de linguagem.”

— Isso quer dizer sim ou insulto? — perguntou Veecent, com aquela voz amaldiçoada que tornava toda irritação mais estranha.

“Em Athas, frequentemente as duas coisas.”

M'uamba estreitou os olhos. O elfo parecia mais magro desde a Pirâmide Invertida, mais seco por dentro, como se parte da força vital ainda tivesse ficado presa em alguma máquina antiga. Mesmo assim, havia autoridade na maneira como segurava o cajado.

— Faça o contato, Pahn-Tu. Antes que uma flecha resolva o idioma.

A presença mental do Rhulisti se abriu.

Não foi como fala. Foi como água fria derramada na nuca, como memória de mar entrando em cérebros feitos para poeira. Os kreen estremeceram quase ao mesmo tempo. O líder da formação inclinou a cabeça, as mandíbulas se movendo em estalos secos, e então a rigidez da falange mudou. Não relaxou. Apenas deixou de apontar diretamente para a violência.

Pahn-Tu ficou imóvel por alguns segundos.

Quando falou de novo, a voz na mente do grupo trazia ecos estranhos, como se filtrasse conceitos por uma língua que não fora feita para bocas humanas.

“Eles avisam que há uma grande fenda ao norte. Aberta pelo terremoto que sacudiu a região meses atrás. A rachadura rasgou uma passagem entre o planalto onde estamos e as terras baixas além dos penhascos a oeste.”

Wener franziu o cenho.

— Uma passagem para onde?

“Para o domínio deles.”

O líder kreen ergueu uma das lâminas quitinosas que carregava e apontou para o norte. A mensagem não precisou de tradução.

Pahn-Tu continuou:

“Podemos contornar a fenda. Mas a base dela já é propriedade imperial. Qualquer um que desça ou tente cruzar será tratado como invasor.”

Veecent soltou um riso curto e feio.

— Propriedade imperial. Ótimo. Até os insetos descobriram imposto.

Adnaan não riu. Observava as posições, os flancos, a disciplina.

— Se lutarmos aqui, não será só contra estes.

— Então não lutamos aqui — disse Wener.

M'uamba encarou a falange por mais um momento, medindo a ameaça como quem mede um feitiço alheio.

— Por enquanto.

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A advertência imperial

O grupo escolheu o leste.

Evitaram a linha kreen e seguiram pela borda do território avisado, deixando as falanges para trás com o mesmo cuidado com que se deixa uma serpente dormir perto do fogo. Ainda assim, não estavam sozinhos. Ao longo da marcha, Adnaan notou primeiro: manchas negras no horizonte, deslocando-se com disciplina, sempre fora do alcance de conversa e dentro do alcance de ameaça. Parte dos kreen os seguia mantendo distância.

Pahn-Tu observou aquilo com uma expressão difícil de ler.

“Organização militar. Hierarquia. Linguagem.”

A telepatia dele carregava acidez suficiente para que as palavras parecessem corroer a própria luz.

“Esse mundo seco, trazido pelas guerras do Arauto, deu um império aos insetos enquanto meu povo se pinta com lama e caça com pedaços de pau.”

Wener caminhou alguns passos em silêncio antes de responder.

— Seu povo sobreviveu.

Os olhos azuis de Pahn-Tu se viraram para ele.

“Sobreviver não é o mesmo que permanecer.”

Kibb, no anel de Wener, era uma presença inquieta. O meio-gigante às vezes inclinava a cabeça como quem ouve alguém falar ao lado, embora nada além do vento se movesse. O antigo halfling falava das Jagged Cliffs, dos Rhul-thaun, das cidades verticais e dos planadores como se a distância fosse medida em dias, não em eras. Como se sua casa ainda estivesse inteira, esperando apenas que ele dobrasse uma curva do mundo.

Ao fim do dia, a fenda apareceu.

Não como um acidente.

Como uma sentença.

Adnaan foi quem se aproximou mais, rastejando baixo entre pedras e tufos duros de capim. O cerrado terminava diante dele em uma borda irregular, quebrada, como se uma mão titânica tivesse agarrado Athas e puxado a crosta para os lados. Do outro lado, não havia outro lado visível. A fenda era larga demais. O ar tremulava sobre o abismo, e o fundo, onde podia ser visto, ficava dois quilômetros abaixo. A rachadura alargava-se para oeste até engolir a paisagem e estreitava-se para leste, subindo aos poucos como uma ferida que tentava fechar.

Lá embaixo, havia movimento.

Uma estrada brilhava de modo errado sob o sol. Não como água. Não como metal comum. Era uma linha pálida e lisa cruzando terreno acidentado, refletindo luz em ângulos que irritavam o olho. Pontos negros se moviam sobre ela. Construções se agarravam ao caminho como carrapatos a uma espinha dorsal.

Adnaan ficou longo tempo sem falar.

Quando voltou, a poeira escondia metade do seu rosto, mas não a preocupação nos olhos amarelos.

— Eles não encontraram uma passagem — disse. — Construíram uma fronteira.

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A grande fenda

Naquela noite, M'uamba ergueu a bolha protetora longe da borda.

A magia se fechou ao redor do acampamento como uma respiração invisível. Do lado de dentro, o vento baixava, o frio da noite feria menos, e os sons do deserto chegavam amortecidos, como se o grupo dormisse dentro de um pensamento. Do lado de fora, Athas continuava acordado.

Ninguém esqueceu os pontos negros na estrada.


O Dia 94 nasceu com luz crua e garganta seca.

A fenda seguia à distância, um risco monstruoso acompanhando a viagem. À medida que o grupo avançava para leste, ela se estreitava, mas não com pressa. Adnaan calculava terreno, sol, inclinação. Talvez mais um dia até o limite. Talvez menos, se o terreno permitisse. Talvez mais, se Athas decidisse cobrar pedágio.

Athas cobrou à noite.

As sementes chegaram sem alarde.

Não morderam. Não zumbiram. Não atacaram com espinhos ou mandíbulas. Apenas se prenderam a pele, tecido e armadura como restos vegetais trazidos pelo vento: pequenas cápsulas discretas, quase invisíveis, com filamentos finos demais para chamar atenção na fadiga da marcha. Uma em Adnaan. Uma em M'uamba. Uma em Veecent.

No escuro, a planta começou a sonhar através delas.

Veecent foi o primeiro a cair.

Dentro da bolha mágica, enquanto o grupo dormia sob a proteção de M'uamba, o elfo amaldiçoado abriu os olhos. Ou melhor: algo abriu os olhos dele. O corpo se levantou sem a irritação habitual, sem praguejar, sem o peso cansado de quem lutara por meses contra ruínas, monstros e má sorte. Seus passos atravessaram o acampamento com obediência vazia.

M'uamba acordou com a sensação errada antes de compreender o motivo.

A bolha não fora rompida por fora. Fora abandonada por dentro.

O feiticeiro viu Veecent caminhando para a noite.

— Veecent.

Nenhuma resposta.

— Veecent!

O elfo continuou.

A voz de M'uamba endureceu.

— Acordem.

Wener se levantou quase de imediato, armadura rangendo, martelo já na mão. Adnaan despertou em silêncio, mais animal que homem, e Garra da Noite ergueu o focinho invisível para farejar. Foi então que o caçador percebeu o detalhe: pequenos corpos vegetais agarrados ao próprio equipamento, à roupa de M'uamba, às dobras de Veecent.

— Sementes — disse ele. — Estão grudadas em nós.

Wener olhou para Veecent se afastando.

— Controle mental?

M'uamba arrancou uma das sementes com dois dedos e a encarou como se quisesse queimá-la com o olhar.

— Algo perto disso.

Pahn-Tu, desperto agora, inclinou a cabeça.

“Psiônica vegetal. Primitiva, mas funcional.”

— Tradução? — perguntou Veecent, sem voz própria, porque seu corpo já desaparecia entre as sombras.

Adnaan respondeu por todos:

— Ele está sendo levado.

O grupo saiu da bolha.

A noite do cerrado os recebeu com frio seco e cheiro de planta esmagada. Seguir Veecent não foi difícil. Difícil foi ignorar o instinto de atirar nele antes que ele chegasse ao que quer que o chamasse.

A fonte do chamado estava adiante.

No meio de uma clareira baixa, cercada por raízes expostas e capim amassado, havia uma planta carnívora com quatro metros de altura e largura. O corpo vegetal era um círculo de fibras grossas, pétalas duras, espinhos úmidos e tendões verdes como músculos mal nascidos. No centro, erguia-se um bulbo carnudo que lembrava um cérebro, sulcado, pulsante, brilhando com umidade doentia. Filamentos saíam dele e entravam no solo, vibrando quando Veecent se aproximava.

Garra da Noite rosnou sem ser visto.

Adnaan sentiu no elo o nojo do companheiro: coisa viva, mas errada.

Wener deu um passo à frente.

— Veecent. Para.

O elfo virou o rosto.

Seus olhos não estavam vazios. Estavam ocupados.

M'uamba ergueu o cajado.

— Não é ele que vai responder.

Então a planta atacou usando o corpo do amigo.


O martelo de Wener voou primeiro.

Cortou a noite em um arco violeta, pesado o bastante para parecer uma pedra de catapulta. Antes que acertasse o bulbo central, a planta se contraiu. Fibras duras saltaram de sua superfície numa reação instantânea, formando uma carapaça grossa, úmida e reflexiva. O impacto soou como metal contra casco. O martelo foi rechaçado, girando de volta para a mão do meio-gigante sem ter feito mais que arrancar lascas vegetais.

— Quebra — rosnou Wener.

Adnaan já puxava o arco.

A flecha eletrificada nasceu entre seus dedos com um estalo azul-violeta. Ele mirou o bulbo, não as pétalas, não os espinhos. O centro. O cérebro. A seta atravessou sessenta pés de noite e entrou na massa carnosa com um clarão seco. A planta estremeceu; cheiro de seiva queimada subiu no ar.

O alívio durou menos de um segundo.

Veecent arqueou as costas.

Linhas invisíveis puxaram energia dele. A pele do guerreiro empalideceu, os músculos endureceram como se uma sede interna o espremesse. O bulbo da planta pulsou e fechou parte da ferida aberta pela flecha.

Wener entendeu antes de todos.

— Ela está usando ele.

M'uamba não esperou.

— Então mataremos a raiz antes que ela termine a refeição.

Os mísseis mágicos deixaram a ponta do cajado como pequenas estrelas violentas. Um, dois, três, quatro impactos bateram contra a planta, arrancando pedaços de fibra, chamuscando pétalas, fazendo o bulbo tremer. A criatura feriu-se de modo discreto, quase insultante.

Então Veecent correu.

Não contra a planta.

Contra M'uamba.

O corpo robusto do elfo amaldiçoado avançou com experiência verdadeira, lâmina baixa, ombros fechados, pés encontrando terreno mesmo sem vontade própria. A voz infantil que sua maldição lhe dera não saiu. Só havia o som de metal e obediência.

Wener se colocou entre ele e o feiticeiro como uma muralha bronzeada.

— Não.

O golpe de Veecent bateu contra a defesa do meio-gigante, arranhando metal, desviando para o lado por pouco. M'uamba sentiu o vento do corte no rosto. Seus olhos estreitaram.

— Se eu sobreviver, Veecent, vou cobrar isso de você.

Wener segurou o amigo à força por um segundo.

— Ele não está ouvindo.

— Eu sei — respondeu M'uamba, seco. — Estou reclamando para depois.


Na segunda troca, o combate se abriu.

Wener arremessou o martelo de novo, mais perto, mais baixo, mirando onde a carapaça reflexa parecia menos espessa. Desta vez o golpe entrou. O impacto esmagou fibras com um som molhado, e eletricidade roxa correu pela massa vegetal. A planta se dobrou, mas não caiu.

Adnaan desapareceu.

Não com fumaça. Com sombra.

Um instante estava perto do grupo; no outro, surgia a setenta e sete pés dali, usando a noite e a própria escuridão sob as pedras como caminho. O arco já vinha erguido. A flecha seguinte saiu antes que qualquer um pudesse se reajustar à nova posição do caçador. Ela acertou o bulbo central, mais funda que a primeira, abrindo uma linha luminosa na carne cerebral da planta.

O monstro respondeu bebendo Veecent outra vez.

Desta vez o guerreiro soltou um som baixo, quase humano, quase dele. A planta sugou vitalidade pelo elo de controle como quem puxa água de um odre. O corpo de Veecent fraquejou por um batimento; o bulbo inchou, fechando-se novamente.

Wener rangeu os dentes.

— Para de se curar nele!

M'uamba enviou outra saraivada de mísseis. As pequenas estrelas arcanas bateram no bulbo e nas fibras expostas, cada uma com um som de carne estalando por dentro. O dano agora era considerável. A planta recuou suas pétalas, irritada.

Veecent aproveitou exatamente o momento em que Wener chamava o martelo de volta.

O guerreiro dominado girou por dentro da guarda, usando a abertura mínima criada pelo retorno da arma. Foi um movimento limpo, experiente, cruelmente familiar. A lâmina atingiu M'uamba de raspão profundo, cortando tecido, pele e orgulho. O feiticeiro cambaleou para trás, uma mão pressionada contra o ferimento.

— Veecent — disse Wener, em voz baixa. Havia aviso e súplica ali. — Não me obriga.

O elfo ergueu a arma de novo.

A planta ergueu-se com ele.

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Veecent dominado pela Brain Seed


Na terceira rodada, a noite pareceu ficar menor.

Wener errou.

O martelo passou ao lado da planta, arrancando folhas e poeira, mas não o centro. O meio-gigante xingou baixinho, mais frustrado consigo mesmo que com a mira.

Adnaan retornou pelo caminho das sombras.

Surgiu perto do ponto inicial, com o olhar fixo no tronco que sustentava o bulbo. Ele não mirou onde a planta parecia ferida. Mirou onde ela precisava estar inteira para continuar controlando Veecent. A flecha eletrificada entrou no caule central com um estalo que iluminou as raízes por dentro.

Mais uma vez, a planta sugou.

Mais uma vez, Veecent perdeu algo que não era só sangue. Os ombros dele caíram um pouco. A mão na arma tremeu por um instante. O rosto manteve a expressão imposta pelo controle, mas o corpo denunciou o custo.

M'uamba estava pálido de raiva.

— Chega.

Os mísseis mágicos vieram outra vez, agora lançados com uma violência quase pessoal. Eles atravessaram a noite em linhas precisas e explodiram contra a massa cerebral. A planta resistiu. Não bem. Não inteira. Mas resistiu.

Veecent também.

Ele avançou contra M'uamba pela segunda vez e, de novo, ludibriou a proteção de Wener com habilidade que só piorava a sensação de traição. Não era um inimigo usando o corpo de Veecent de maneira desajeitada. Era Veecent lutando bem demais a serviço de outra vontade.

A lâmina acertou o feiticeiro com força.

M'uamba quase caiu.

O corte abriu sangue escuro sobre a túnica roxa, e por um instante seu cajado tocou o chão para impedir que o corpo o seguisse. A fraqueza antiga da Pirâmide Invertida voltou a aparecer nos braços, no tremor fino dos dedos, na voz que saiu mais baixa do que ele gostaria.

— Eu vou arrancar essa coisa da terra — disse ele.

Wener agarrou Veecent por um ombro, tentando contê-lo sem quebrá-lo.

— Primeiro vamos trazer ele de volta.

Adnaan já se movia.

Garra da Noite avançou pelo flanco, invisível, rosnando no elo como uma promessa de dentes. Mas foi o caçador quem encontrou a linha final.

A planta estava ferida demais para esconder seus padrões. Cada vez que drenava Veecent, o bulbo inchava. Cada vez que se curava, as fibras ao redor do tronco central se abriam por uma fração de segundo.

Adnaan esperou essa fração.

Athas inteiro pareceu prender o ar.

A flecha saiu.

Ela atravessou o espaço como um relâmpago contido, acertou o tronco sob o bulbo e espalhou eletricidade pelas raízes. A Brain Seed convulsionou. Suas pétalas se abriram de uma vez, o bulbo rachou no centro, e uma seiva espessa escorreu como pensamento apodrecido.

Veecent caiu de joelhos.

O controle se partiu.

Por alguns segundos, só houve o som dele respirando.

Wener largou o martelo e segurou o companheiro antes que ele tombasse de lado.

— Veecent?

O elfo piscou, confuso, suado, drenado, vivo.

— Por que eu estou com gosto de planta na boca?

M'uamba, ainda sangrando, encarou-o com uma frieza quase elegante.

— Porque você tentou me matar a mando de uma salada psíquica.

Veecent olhou para a lâmina na própria mão, depois para o ferimento do feiticeiro.

— Eu acertei?

— Duas vezes.

— Forte?

— O bastante.

Veecent fechou os olhos por um instante.

— Merda.

Wener soltou o ar devagar.

— Você voltou. Isso basta.

M'uamba pressionou o ferimento e respondeu sem tirar os olhos do cadáver vegetal:

— Discordo da parte do “basta”, mas aceito discutir depois.


A manhã encontrou o grupo desmontando a criatura.

Adnaan trabalhou com faca e paciência. Veecent, ainda pálido, insistiu em ajudar, talvez por culpa, talvez por teimosia, talvez porque nada em Athas devia ser deixado para apodrecer se pudesse virar vantagem. Juntos, arrancaram sementes, fibras e pedaços do bulbo central. A planta morta tinha cheiro de seiva amarga e carne úmida, e suas raízes continuaram tremendo muito tempo depois do fim, como nervos recusando a notícia da morte.

Pahn-Tu observou o bulbo cerebral com interesse imediato.

“Isto pode ser útil.”

M'uamba ergueu uma sobrancelha.

— Para curar?

“Para matéria de laboratório.”

— Essa resposta não me tranquiliza — disse Wener.

“Não foi feita para tranquilizar.”

O meio-gigante suspirou, e Kibb murmurou algo em sua mente. Wener franziu o cenho.

— Kibb diz que, se isso for usado para fazer um corpo novo para ele, prefere não ter folhas.

Pahn-Tu encarou o anel.

“A preferência estética do Andarilho dos Ventos será considerada.”

Veecent, sentado numa pedra, olhou para o próprio braço ainda trêmulo.

— Considera também não botar ninguém dentro da cabeça dos outros.

Adnaan terminou de limpar a lâmina.

— Essa parte não era da planta. Era de Athas.

Ninguém teve resposta melhor.


O Dia 95 trouxe o fim da fenda.

Depois de mais uma jornada seguindo o corte monstruoso no mundo, o grupo alcançou o ponto onde a rachadura se estreitava o bastante para ser contornada. Não era exatamente um alívio. Era mais como chegar à borda de uma ferida e descobrir que a pele ao redor ainda estava quente, inflamada, vigiada.

Seguindo os conselhos de Kibb, cruzaram para a margem norte e decidiram acompanhar a borda por algum tempo, passando entre a fenda e as montanhas da Dragon's Crown. A intenção era recuperar a altura original antes de retomar a rota ao norte, rumo aos penhascos acima de Mir-Sath e, além deles, às promessas quase impossíveis dos Rhul-thaun.

À noite, M'uamba ergueu a bolha mais uma vez.

O gesto já se tornara ritual. O feiticeiro desenhava a proteção com economia de movimento, como quem não admite que o cansaço pese. Dentro dela, o grupo dormia melhor do que merecia. Fora dela, o mundo continuava raspando dentes no escuro.

Nos dias seguintes, a marcha adquiriu um ritmo quase perigoso de normalidade.

No Dia 96, a margem norte revelou uma terra mais generosa. Plantas de raiz grossa surgiam em manchas férteis, comestíveis, grudadas à terra como se a proximidade da fenda tivesse exposto algum veio escondido de vida. Wener arrancou uma delas com facilidade e a examinou com surpresa.

— Comida.

Veecent olhou em volta, desconfiado.

— Em Athas isso costuma significar que a comida quer comer você depois.

Adnaan cheirou a raiz, cortou uma lasca, esperou.

— Esta não.

M'uamba observou a planta com interesse menor que o de Pahn-Tu, mas ainda assim real.

— Talvez a fenda tenha trazido minerais das profundezas.

Pahn-Tu respondeu sem entusiasmo:

“Ou talvez o mundo morto ainda tenha reflexos involuntários de fertilidade.”

— Você consegue fazer até raiz parecer insulto — disse Veecent.

“A raiz não é o alvo.”

No Dia 97, a fenda já parecia menos senhora do horizonte. Ao fim da jornada, Kibb e Adnaan concordaram que podiam voltar a seguir direto para o norte. Wener ouviu o halfling antigo por um tempo antes de traduzir, a voz mais cuidadosa do que o normal.

— Kibb diz que, desse ponto, o caminho para casa volta a fazer sentido.

Pahn-Tu não corrigiu a palavra casa.

Talvez por delicadeza.

Talvez por crueldade.

Talvez porque, para ele também, a palavra doesse.

No Dia 98, a fenda ficou para trás.

A marcha voltou a apontar para o norte. O cerrado se abria em ondulações secas, e a Dragon's Crown mantinha sua presença distante, serrada, como dentes de pedra mordendo o céu. Depois de dias sem encontros hostis, os corpos começaram a aceitar descanso de verdade. Feridas fecharam melhor. O sono perdeu parte de sua prontidão. Até Garra da Noite parecia menos eriçado, embora nunca menos atento.

Wener caminhava mais calado, ouvindo Kibb.

Ao fim da tarde, compartilhou o que recebia pelo anel.

— Ele está eufórico. Fala da cidade. Dos ventos. Dos planadores. Dos caminhos nas falésias. Fala como se fosse chegar e encontrar tudo igual.

Adnaan olhou para o norte.

— Talvez precise acreditar nisso até ver.

M'uamba respondeu com a dureza dos homens que estudam ruínas demais:

— Crenças raramente sobrevivem bem ao contato com séculos.

Veecent chutou uma pedra para longe.

— Você é sempre essa alegria toda ou guarda um pouco para ocasiões especiais?

— Eu distribuo conforme a necessidade.

Pahn-Tu caminhava alguns passos atrás. A luz do fim do dia tocava sua armadura de coral com cores que não pertenciam ao deserto.

“O tempo não preserva. Apenas escolhe formas diferentes de destruição.”

Wener fechou a mão ao redor do anel.

— Então talvez a gente ajude ele a encontrar alguma coisa que sobrou.

Pahn-Tu não respondeu.

Naquela noite, todos dormiram bem.

Isso, em Athas, quase sempre era prenúncio de dívida.


No meio do Dia 99, a dívida apareceu no céu.

Primeiro, foram sombras.

Duas formas grandes cruzaram o sol por um instante, largas demais para aves, regulares demais para monstros errantes. Adnaan ergueu a mão e o grupo parou. Garra da Noite abaixou o corpo, invisível na grama seca. Wener já segurava o martelo. M'uamba murmurou uma palavra curta que deixou o ar em torno dos dedos mais pesado.

As criaturas desceram o bastante para serem vistas.

Eram insetos alados gigantes, cada um com seis metros de envergadura, asas translúcidas vibrando com força suficiente para levantar poeira em redemoinhos. Seus corpos haviam sido moldados para carga e obediência: quitina reforçada, articulações engrossadas, placas presas a fibras vivas. Sobre cada um havia um howdah, e em cada howdah dois kreen de carapaça escura observavam a terra com olhos que brilhavam de foco psíquico.

Gaiolas de fibra pendiam dos corpos dos insetos.

Abaixo deles, doze kreen imperiais marchavam em formação, carregando doze cativos.

Os prisioneiros não eram da mesma espécie. Eram thri-kreen como os que o grupo conhecia das próprias terras: menos organizados, menos negros, menos imperiais. Estavam presos por amarras de resina cristalina que brilhavam no sol e limitavam braços, mandíbulas e pernas. Alguns ainda tentavam resistir. Outros mal conseguiam andar.

Veecent parou ao lado de Wener.

— Isso é o que parece?

Adnaan já tinha a resposta no rosto.

— Escravos.

Wener olhou para Pahn-Tu.

— Fale com eles.

O Rhulisti tentou.

Desta vez, a telepatia encontrou uma parede.

Os dois kreen nos howdahs viraram a cabeça ao mesmo tempo. Seus olhos brilhavam com disciplina mental, não só inteligência. A comunicação que voltou veio filtrada por eles, dura, controlada, sem abertura para os cativos.

Pahn-Tu traduziu:

“Eles dizem que devemos nos afastar. Estão capturando propriedade imperial.”

O ar pareceu secar mais.

“Os cativos serão levados ao império para processamento.”

M'uamba repetiu a palavra, devagar:

— Processamento.

Pahn-Tu observou os insetos alados, e pela primeira vez desde a fenda seu desprezo habitual deu lugar a algo mais afiado: interesse com raiva.

“As montarias são vida modificada. Não simples domesticação. Há modelagem. Seleção forçada. Talvez enxertos. Algo que imita, de modo bruto, princípios da Arte antiga.”

Wener olhou para os cativos.

— Eles vão transformar esses kreen?

“Provavelmente moldá-los em uma nova casta do império.”

Veecent apertou o cabo do Mantaster.

— Então é isso. Escravidão com palavrinha bonita.

Adnaan ficou em silêncio.

O caçador observava número, distância, vento, gaiolas, asas, mentalistas, formação. Doze embaixo. Quatro em cima. Doze prisioneiros que podiam morrer no primeiro erro. Um céu aberto demais, chão irregular demais, pouca cobertura. Um inimigo organizado, preparado para guerra e captura.

Garra da Noite enviou pelo elo uma impaciência quente: presa acorrentada, predadores em volta, ataque possível.

Adnaan respondeu sem palavras: ainda não.

Wener deu um passo à frente.

— Não vou ver isso e seguir andando.

M'uamba não discordou. O que, para ele, já era quase entusiasmo.

— A questão não é se intervimos. É como impedimos que matem os cativos antes de cair.

Pahn-Tu encarava os mentalistas kreen com olhos azuis sem pupila.

“Cuidado. Eles não são bárbaros. Uma civilização que constrói castas também constrói respostas para rebeliões.”

Veecent ergueu o machado.

— Então vamos dar a eles uma pergunta nova.

Adnaan finalmente puxou uma flecha, mas ainda não a soltou.

— Primeiro, os que controlam a mente. Depois, as asas.

Wener assentiu.

— Eu seguro a linha.

M'uamba levantou o cajado, e o cristal roxo flutuante capturou um brilho cruel do sol.

— E eu faço o céu lembrar que cair é uma opção.

Os kreen imperiais começaram a se reorganizar.

Os cativos perceberam.

Por um instante, doze pares de olhos alienígenas se voltaram para o grupo com algo que talvez não fosse esperança, porque esperança era palavra humana demais, macia demais, para criaturas nascidas em um mundo como aquele. Mas havia reconhecimento. Havia urgência. Havia a terrível pergunta comum a todos os seres acorrentados:

Alguém vai quebrar isto?

No cerrado seco, sob o sol impiedoso de Athas, o grupo ainda discutia a melhor forma de responder.

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Os escravagistas kreen


Notas de Rodapé: O encontro com os kreen imperiais revelou uma civilização organizada nas terras baixas abertas pela grande fenda, com hierarquia militar, mentalistas e domínio de vida modificada semelhante, ainda que inferior ou derivado, à Arte Rhulisti. A palavra “processamento” sugere a transformação de thri-kreen cativos em castas imperiais. A Brain Seed rendeu sementes, fibras e um bulbo cerebral de interesse para o futuro laboratório de Pahn-Tu.