O Sussurro da Água Profunda e a Fúria da Matilha

Dias 91 a 93 — A despedida, a árvore dos antigos, o sangue dos tembos e o primeiro eco dos Rhul-thaun


O norte chamava.

A decisão foi tomada ainda sob o eco da pirâmide: seguir em direção às terras de Kibb. Não havia mapa, apenas a certeza de um velho espírito preso num anel de metal, apontando com a memória de ventos que já não sopravam sobre Athas.

Tao'ka, porém, tomou outro caminho.

— Vou voltar para Cevarra — disse o teleportador, já ajustando as espadas no cinto. O tom era leve, mas o olhar ponderado. — Mas não vou sumir de vez. Se precisarem de mim, eu vou saber.

Ele tocou a própria têmpora e apontou para Wener.

— A ligação psiônica continua. Vocês não vão se livrar de mim tão fácil.

M'uamba observou a despedida com o silêncio de quem já perdeu a conta de quantas vezes viu grupos se desfazerem. Depois, traçou círculos no ar com o cajado, murmurou palavras que fizeram o chão vibrar baixo, e marcou o local com um ponto de ancoragem arcano.

— Se precisarmos voltar — disse, sem mais explicações —, o portal saberá onde nos encontrar.

Tao'ka acenou uma última vez e desapareceu num estalo de ar comprimido. O grupo era um a menos.


O Dia 91 foi generoso.

O cerrado se abria diante deles como um mar de capim seco e arbustos resistentes, o terreno firme permitindo uma marcha rápida e constante. O sol escaldava como sempre — dois discos de luz implacável que não deixavam dúvida sobre quem mandava em Athas —, mas o vento trazia um frescor incomum, quase um alívio. O grupo percorreu uma distância considerável antes que o cansaço pedisse trégua.

Acamparam à sombra de uma árvore agafari.

Ela era imensa, colossal, com casca azulada que brilhava como metal polido sob a luz poente. Sua madeira era lendária — diziam que rivalizava com o aço em dureza — e Adnaan jamais tinha visto uma ao vivo. As agafaris só cresciam em florestas mais úmidas, longe do deserto escaldante onde ele nascera. Ver aquela árvore, ali, viva, era como encontrar um pedaço de esperança plantado no meio do esquecimento.

Ele ficou um longo tempo em silêncio, observando os galhos.

Sessao_2026_04_26_1.png
A Árvore Agafari

Pahn-Tu se aproximou sem fazer barulho.

— Esta é uma árvore bem antiga — disse o Rhulisti, a voz telepática ecoando como água numa caverna. — Acho que você sente o que ela bebe.

Adnaan não respondeu, mas não precisava.

— Tem uma nascente profunda debaixo desta terra — completou Pahn-Tu. — Muita água.

Adnaan tocou a casca azulada com a ponta dos dedos. Um bom presságio, pensou. Um bom lugar para sua tribo.


O Dia 92 começou com sangue.

M'uamba mal tinha desfeito as proteções arcanas do acampamento quando o silêncio mudou. Os insetos pararam de cantar. Garra da Noite baixou a cabeça, as orelhas coladas ao crânio, o corpo tenso como corda prestes a arrebentar. O capim se movia contra o vento — e não era brisa.

Adnaan ergueu o punho. Narinas abertas, olhos varrendo o horizonte. Sentiu o cheiro antes de ver: suor animal, fome velha, o odor azedo de predadores que não conheciam medo.

— Tembos — rosnou ele, puxando o arco. — Matilha completa.

Eles surgiram do cerrado como se o próprio chão os tivesse parido.

Sessao_2026_04_26_2.png
A Matilha de Tembos

Cada tembo era tão grande quanto Garra da Noite — bestas musculosas, de mandíbulas salivantes e olhos vidrados de fome psíquica. Diferente de qualquer predador comum, eles não hesitavam. Não sentiam medo. Suas presas vibravam com energia mental, prontas para sugar a vitalidade de qualquer ser vivo que cruzasse seu caminho.

O combate explodiu sem aviso.

Os tembos atacaram como uma onda de carne e fome. Garras rasgaram o ar, mordidas procuraram carne, e o grupo respondeu com aço, madeira e fogo. Veecent foi o primeiro a sangrar o inimigo — Mantaster assobiou e a cabeça de um tembo voou, separada do corpo num golpe limpo e brutal.

— Um a menos — murmurou o elfo, já virando para o seguinte.

Mas os outros não recuaram. Três tembos o engolfaram de uma vez, garras encontrando carne, dentes encontrando couro.

— Veecent! — gritou Adnaan, já puxando a corda do arco.

O elfo caiu de joelhos, o corpo encharcado de vermelho. Tentou erguer o Mantaster mais uma vez, mas os braços não responderam.

— Levanta... — sussurrou para si mesmo, a voz já fraca.

Seus olhos perderam o foco e ele tombou de lado, inconsciente antes mesmo de atingir o chão.

Wener rugiu.

— Sai de cima dele, desgraçado!

O martelo de retorno descreveu um arco violeta e acertou um tembo em cheio no flanco, jogando-o de lado com um estalo de costelas. Mas outro já estava em cima de Adnaan, e o caçador sentiu sua energia ser sugada por uma força invisível — como se algo gelado estivesse puxando a vida pelos poros.

— Ele está me drenando!

Garra da Noite surgiu do nada, as garras energéticas brilhando, e cravou-as nas costas do agressor com um rosnado que vibrou no elo mental dos dois. O tembo soltou Adnaan, girando para enfrentar a nova ameaça.

M'uamba observava. Calculava.

O cone prismático não funcionara. As bestas resistiam à luz. Ele rangeu os dentes.

— Resistentes. Muito bem. Vamos ver se resistem a isso.

Seu rosto, marcado pela drenagem que ainda carregava nos braços trêmulos, se fechou numa expressão de frieza determinada.

— Preparem-se! — avisou, a voz cortante.

Ele ergueu o cajado.

O cristal roxo no topo pulsou uma vez, duas. O ar ao redor do elfo distorceu, e então o fogo veio.

A bola de fogo explodiu no centro da matilha com a violência de um sol miúdo.

Sessao_2026_04_26_3.png
A Bola de Fogo de M'uamba

Metade dos tembos morreu na hora — queimados, carbonizados, reduzidos a cinzas que o vento quente espalhou como poeira. O calor foi tão intenso que passou raspando pelo grupo, e M'uamba sentiu o peso da escolha nos olhos dos companheiros.

— Respirem depois — disse o elfo, a voz gelada e sem pressa. — Ainda há dentes de pé.

Wener não respondeu. Correu até Veecent e estendeu a mão. A energia biopsiônica jorrou em direção ao corpo caído, fechando os piores ferimentos. Veecent abriu os olhos com um arquejo, a mão já procurando o cabo do machado.

— Ainda não acabou — disse Wener, ajudando-o a se levantar.

— Bom — rosnou Veecent, o olhar sombrio. — Ainda tenho contas a acertar.

Os tembos restantes, mesmo feridos, não fugiram. A ferocidade cega que os movia era maior que o instinto de sobrevivência — eles só sabiam atacar, morder, sugar.

— Acabem com eles — ordenou Wener.

O fim veio aos poucos: o martelo de Wener mergulhando no crânio de um tembo, as flechas sombrias de Adnaan cravando-se em gargantas e olhos, o machado de Veecent abrindo os últimos corpos, e as chamas de M'uamba lambendo o que restava. Um a um, os tembos tombaram, até que o silêncio voltou a pairar sobre o cerrado.

O chão estava coberto de sangue azul-escuro.


— Você não ajudou.

A voz de Wener era baixa, mas carregada de acusação.

— De novo.

Pahn-Tu observava a carnificina com uma expressão difícil de decifrar — não era culpa, não era indiferença. Era algo entre avaliação e tédio.

— Se não fosse por nós — disse Adnaan, limpando o sangue da lâmina — você ainda estaria preso naquela pirâmide.

O Rhulisti ergueu uma sobrancelha. Seus olhos azuis, totalmente azuis, sem pupila e sem branco, pareciam conter uma profundidade milenar.

— Eu retribuirei o favor quando tiver meu laboratório reconstruído. Até lá, vocês têm capacidade de lutar por conta própria. E, pelo que vi, também tinham vontade de brincar com as bestas antes de acabar com elas.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o ar depois da bola de fogo.

Wener cerrou os punhos e se afastou, os dentes rangendo. Adnaan apenas balançou a cabeça, exausto demais para discutir. M'uamba não disse nada — estava ocupado demais estudando a textura do sangue dos tembos, como se houvesse ali uma verdade que o Rhulisti se recusava a compartilhar.

Depois que as feridas foram curadas e o cansaço dissipado pela energia restauradora de Wener, Adnaan e Veecent retiraram o que podiam das carcaças — o couro grosso, os dentes afiados, as presas que valiam ouro nos mercados do sul. O espólio de uma batalha que quase os destruíra.

O grupo seguiu viagem.


No Dia 93, a paisagem mudou.

O cerrado deu lugar a um terreno mais acidentado, onde rachaduras cortavam a terra como cicatrizes antigas e a vegetação rareava até quase desaparecer. O chão parecia ter sido revirado por alguma força violenta, como se a própria Athas tivesse sofrido um espasmo geológico e depois congelado no meio do movimento.

Foi então que avistaram os thri-kreen.

Duas falanges formadas — oito criaturas no total, organizadas em fileiras compactas, imóveis como estátuas de obsidiana polida. Eram maiores do que qualquer thri-kreen que o grupo já tinha visto. Suas carapaças não eram verdes ou amareladas como as dos selvagens das dunas; eram negras, profundas, refletindo a luz como mineral vulcânico. À frente delas, um kreen maior, com pinturas diferentes no exoesqueleto, observava o grupo com uma atenção que não era animal.

Sessao_2026_04_26_4.png
A Patrulha Thri-kreen

Adnaan tornou-se invisível e se aproximou. Voltou minutos depois.

— Kibb — chamou Wener, tocando o anel. — Você conhece esses kreen?

A voz do velho espírito entrou na mente do meio-gigante como um sussurro grave.

"Eles são civilizados. Vivem na grande savana aos pés dos penhascos dos Rhul-thaun. Mas..." Houve uma pausa. "Não faço ideia do que estão fazendo neste planalto. Os thri-kreen jamais conseguiram escalar os penhascos onde meu povo vive."

O líder dos thri-kreen ergueu um dos quatro braços — o direito frontal, desarmado — e emitiu uma série de cliques e estalidos. Uma língua de percussão e silêncio, tão estranha quanto o eco de pedras batendo.

O grupo continuou andando.

O kreen se agitou. Os cliques ficaram mais rápidos, mais insistentes, e as duas falanges atrás dele se fecharam numa formação mais compacta.

O vento parou.

O grupo parou.

— Pahn-Tu — disse Wener, a voz tensa. — Você consegue se comunicar com eles?

O Rhulisti inclinou a cabeça. Seus olhos azuis, orbes de luz sem pupila, estavam fixos nos kreen negros.

O grupo esperou.


Notas de Rodapé:

  • A árvore agafari, de madeira azulada tão forte quanto o aço, cresce apenas em florestas mais úmidas de Athas — Pahn-Tu detectou uma nascente profunda sob suas raízes.
  • Os tembos são predadores psiônicos que não sentem medo; sugam energia vital das presas e lutam até a morte sem jamais recuar.
  • O encontro revelou a existência de thri-kreen civilizados de carapaça negra como obsidiana, habitantes da savana aos pés dos penhascos Rhul-thaun — os primeiros vistos pelo grupo neste planalto.
  • Pahn-Tu recusou-se a intervir no combate, reiterando que só retribuirá o favor de ter sido libertado quando seu laboratório estiver reconstruído.