O Amaldiçoado, as Dunas e a Água Antiga

Dias 81 a 87 — Da borda da selva ao oásis

Os ossos dos Pterrans ainda estavam úmidos.

Não de sangue — o calor e os vermes já haviam levado isso —, mas da memória recente da violência. Costelas partidas jaziam entre cinzas apagadas e couro rasgado; um acampamento inteiro reduzido a restos brancos e marcas de arrasto na terra escura. Depois da batalha contra os B'rohgs, enquanto Wener tratava cortes e M'uamba continha a própria exaustão atrás de uma expressão dura, Adnaan se agachou entre os despojos e deixou os dedos roçarem o chão.

O caçador não precisava de muito. Um cheiro, um sulco, um tufo de capim esmagado do jeito errado.

— Comeram eles aqui mesmo — disse, baixo. — E foram embora satisfeitos.

Garra da Noite, invisível como uma ameaça antiga, farejou junto dele. O elo entre os dois trouxe a Adnaan um lampejo de fome alheia, brutal e animal, tão diferente da disciplina de uma matilha que ele precisou cerrar o maxilar para afastar o gosto mental.

Não havia nada a enterrar. Nada a salvar. Apenas o lembrete, mais uma vez, de que Athas não desperdiça seus mortos.

O grupo seguiu viagem.


Os dois dias seguintes foram de um silêncio quase desconfortável.

A selva foi rareando aos poucos, como se o mundo estivesse desaprendendo a ser fértil. As árvores se afastaram umas das outras. O verde perdeu o vigor e ficou áspero. O ar, antes pesado de umidade, começou a se abrir em rajadas mais secas, e o chão foi trocando lodo por poeira e raízes por pedra quente.

No fim do sétimo dia de viagem desde a saída da pirâmide, foi Adnaan quem avistou o movimento primeiro.

Halflings.

Eram selvagens, magros, rápidos, de olhos duros, movendo-se entre arbustos e troncos retorcidos com a agilidade de bichos pequenos e atentos. Lanças curtas nas mãos, ossos e couro no corpo, e um silêncio desconfiado de quem conhece bem a fome. Mas entre eles vinha uma figura impossível de confundir.

Um velho companheiro de estrada.

Veecent.

O elfo amaldiçoado trazia no corpo a poeira de outros caminhos e no rosto a marca da desgraça que o acompanhava desde antes: as feições infantis, a voz de bebê aprisionada em um sobrevivente de ruínas e carnificinas. Ainda assim, havia nele algo de mais sólido do que a lembrança. Os meses entre os halflings não o haviam amansado; tinham, se muito, afiado outra vez suas arestas.

Adnaan o fitou por um instante em silêncio, como se quisesse ter certeza de que o deserto não lhe pregava mais uma visão.

— Então era você mesmo — disse por fim, a voz baixa, quase sem peso, mas com um calor raro. — Pensei que a areia tinha aprendido a mentir... ou que a selva tinha resolvido ficar com você de vez. É bom ver que não ficou.

Veecent mostrou os dentes num meio sorriso torto, o machado apoiado no ombro, a voz aguda sempre em desacordo com a dureza do resto dele.

— Eu também senti saudade de você, Adnaan.

Wener deu um passo à frente, enorme como uma muralha saindo do sol, e abriu um sorriso franco.

— Bom te ver de pé de novo, Veecent. O grupo estava estranho sem você.

Veecent bufou pelo nariz, olhando primeiro para o meio-gigante e depois para Adnaan.

— Estranho ele sempre foi. Eu só deixei vocês menos feios por uns tempos.

M'uamba, que até então observava em silêncio com o cajado fincado na areia, ergueu uma sobrancelha.

— Um retorno inesperado — disse ele, a voz baixa e seca como pergaminho velho. — Eu diria que Athas às vezes demonstra senso de humor, mas isso implicaria bondade demais da parte dela.

Veecent virou o rosto na direção do feiticeiro e soltou uma risada curta, mais áspera do que alegre.

— E você continua falando como se tivesse engolido uma biblioteca.

— E você continua voltando dos lugares mais improváveis — retrucou M'uamba. — O que, admito, é uma qualidade rara.

Por um instante, apesar do calor, da fome e do peso de Pahn-Tu ao lado deles, a estrada pareceu menos cruel.

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Reencontro de Veecent com Adnaan

Pahn-Tu, porém, reagiu de outro modo.

A presença do Rhulisti pesou sobre todos como umidade antes da tempestade. Seus olhos azuis e sem pupila percorreram os halflings com uma mistura amarga de reconhecimento e luto, como alguém que encontra a própria casa transformada em ruína viva.

“Este é o meu povo...”

A voz veio direto à mente do grupo, fria e funda como água de poço antigo.

“Esqueceram tudo. A Arte. O Azul. Mal sabem falar. São praticamente animais. Esse foi o resultado da loucura do Arauto da Guerra? Milhares de anos de civilização... e agora caçam lagartos com paus.”

A tristeza de Pahn-Tu não era gentil. Era a tristeza dos velhos deuses, feita de desprezo, memória e horror.

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A tristeza de Pahn-Tu

Os halflings pouco entendiam daquela dor. Entendiam, isso sim, o valor de ter Veecent ao seu lado e o perigo contido naquele grupo de andarilhos armados, cobertos de magia, aço e cicatrizes. Houve um breve impasse, algumas palavras trocadas, olhares pesados, mãos mais firmes sobre armas.

No fim, prevaleceu a estrada.

Veecent voltou a caminhar com eles.


A selva ficou para trás como um sonho abafado, e as dunas começaram.

Era uma faixa de deserto hostil, um ventre de areia entre a mata moribunda e o cerrado que o grupo buscava. Ali o vento tinha outra voz. Não sussurrava entre folhas; assobiava por sobre o lombo das dunas como uma lâmina sendo afiada. A luz se tornava mais impiedosa. O ar deixava de abraçar para passar a raspar.

Foi no meio do nono dia de viagem que a areia resolveu se erguer para matar.

Adnaan sentiu primeiro.

Não viu exatamente. Sentiu.

A duna alta demais. O padrão do vento quebrado. A superfície lisa onde deveria haver trilhas de lagarto ou inseto. O silêncio peculiar daquilo que está se segurando para saltar.

Ele desapareceu num estalo de sombra e reapareceu no alto de uma duna, a silhueta recortada contra o brilho pálido do deserto.

EMBOSCADA! CUIDADO!

A areia explodiu.

Cinco Dune Reapers romperam o chão como se o próprio deserto cuspisse suas lâminas. Carapaças, membros em foice, fome antiga e uma camuflagem psíquica grosseira o bastante para enganar quase todos — menos o caçador da Tribo dos Caçadores da Noite.

Dois deles caíram sobre Wener numa chuva de areia e quitina. As foices riscaram bronze, carne e faísca roxa, cravando-se contra o meio-gigante com a violência de ferramentas de colheita feitas para abrir homens em vez de trigo. Outro saltou sobre Veecent, mas o elfo amaldiçoado foi mais rápido: recuou no último instante e a lâmina passou raspando o calor à frente do seu peito. Um quarto monstro saiu de baixo dos pés de M'uamba e o atingiu com força bastante para lhe arrancar o ar. O último tentou ceifar Tao'ka, e encontrou apenas um borrão de reflexo e desprezo.

A primeira resposta veio em fogo.

Adnaan, já fora da camuflagem, puxou a corda do arco até o limite e soltou uma flecha elétrica. O projétil riscou o deserto como um risco azul-violeta e atingiu o predador que havia saltado sobre M'uamba, abrindo rachaduras luminosas na carapaça do peito.

M'uamba ergueu o cajado no mesmo instante.

A bola de fogo nasceu pequena, quase elegante — e então floresceu. O clarão laranja lavou as dunas, lançou sombras longas e transformou a areia mais próxima em vidro quebradiço. O Dune Reaper já ferido carbonizou quase por inteiro; outros três saíram do impacto chamuscados, fumegando e furiosos.

Veecent entrou logo depois da chama.

Com um grito agudo e feroz que sua maldição tornava estranho, mas não menos ameaçador, ele girou o machado Mantaster e o enterrou na carapaça de um dos insetóides. O golpe estilhaçou placas e fez a criatura recuar com um ruído seco, entre metal partido e osso quebrado.

O deserto respondeu com malícia.

O Dune Reaper ferido devolveu o ataque, uma das foices acertando Veecent em cheio e arrancando sangue. Outro lançou contra ele uma investida mental brusca e abrasiva, como se unhas invisíveis tentassem travar sua vontade. Por um instante o elfo ficou preso no próprio corpo, incapaz de avançar.

Wener tentou esmagar um dos monstros com o martelo energizado. A arma desceu com toda a força de seus braços titânicos — e encontrou uma pedra mal enterrada na duna, desviando o golpe num estalo de frustração. Faíscas roxas explodiram para o lado.

— Quebra, droga! — rosnou ele, mais ofendido do que ferido.

Na rodada seguinte, a batalha mudou de dono.

Adnaan percebeu que o predador sobre Veecent era o perigo mais imediato. Ajustou o arco, respirou uma única vez e deixou a flecha partir. O projétil atravessou a cabeça do Dune Reaper com violência suficiente para fazer a carapaça explodir em lascas e massa escura.

VEECENT, PENSE EM SE CURAR!

A ordem veio como flecha também. E de algum modo, no rastro da morte recém-causada, a própria força vital do bicho pareceu escorrer para onde era necessária. Veecent endireitou a postura, ainda ensanguentado, mas menos quebrado.

M'uamba, sem desperdiçar fôlego, terminou outro inimigo com uma saraivada de mísseis mágicos. Pontas de energia cortaram o ar e afundaram na carapaça do Dune Reaper que pressionava Wener, destroçando-o por dentro até ele tombar como um monte de membros inúteis.

Tao'ka surgiu no flanco como um pensamento ruim. Teleportou-se para perto do predador que ainda ameaçava Veecent e desferiu dois golpes de cimitarra numa dança curta, cruel, precisa. As lâminas azul-elétricas cortaram juntas, abrindo fendas por onde vazou um líquido espesso e escuro.

Veecent não desperdiçou a abertura. Girou o Mantaster de novo e arrebentou o que restava da carapaça do monstro, dando fim ao predador com um golpe que ecoou nas dunas.

O resto da matança não durou muito.

Quando a areia finalmente assentou, os Dune Reapers jaziam aos pedaços ao redor do grupo, e o ar ainda cheirava a fogo, quitina queimada e eletricidade.

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Emboscada dos Dune Reapers

Pahn-Tu observou a carnificina com um interesse frio, quase acadêmico.

“Criaturas moldadas.”

A frase soou na mente de todos como o toque de um dedo em água escura.

“Trabalho grosseiro. Talvez estoque antigo de Rajaat, o Arauto.”

Aquilo bastou para deixar o silêncio mais pesado do que o calor.

Depois, como sempre, vieram os gestos da sobrevivência. Curar. Limpar. Cortar. Guardar. Veecent ajudou Adnaan a extrair partes valiosas dos predadores — placas, segmentos, peças ainda úteis para quem soubesse vendê-las ou transformá-las em outra arma contra o mundo.


Mais quatro noites passaram no deserto.

Sem água.

A reserva do grupo foi descendo rápido, jarro após jarro, gole após gole, língua após língua. O que era escasso para homens comuns tornava-se quase insulto para Pahn-Tu. O Rhulisti não apenas bebia: parecia secar por dentro sob os dois sóis, como um pedaço de mar arrancado de seu lugar natural e deixado para morrer em pedra quente.

Sua armadura de coral multicor foi perdendo o brilho. O que antes pulsava em tons vivos foi ficando pálido, depois esbranquiçado em partes, como se o próprio sal estivesse saindo dela.

No décimo-terceiro dia de viagem, no entanto, algo mudou.

Pahn-Tu parou no alto de uma elevação baixa, ergueu a cabeça e respirou como quem fareja uma lembrança impossível.

“Água.”

A palavra veio tão carregada de desejo que todos sentiram a sede crescer junto.

“À frente. Profunda. Limpa.”

Caminharam mais um pouco e então o oásis surgiu.

Grande. Cercado de plantas. Um pedaço de vida indecente no meio das dunas, verde demais, quieto demais, bonito demais para confiar. A água cintilava no centro como um olho aberto para o céu.

Pahn-Tu quase correu.

Quebrou a formação, coral pálido e urgência azul, movendo-se em direção à borda com a avidez de quem reencontra um deus.

Foi Adnaan quem viu a sombra primeiro.

Um movimento profundo, lento, espesso, deslocando a escuridão debaixo da superfície limpa.

— Recuar! — ele gritou.

A água rompeu.

A criatura emergiu de uma só vez, grande o bastante para fazer o oásis parecer pequeno. Tinha cabeça comprida como a de um crocodilo, fileiras de dentes afiados e escamas azuis que brilhavam com um tom estranho, mais próximo de mineral molhado do que de couro vivo. Não havia nada de natural nela. Era beleza errada, precisão errada, fome errada.

Adnaan sentiu isso antes de entender.

M'uamba, por outro lado, sorriu com aquele brilho perigoso que sempre antecedia magia, ruína ou ambas.

— Um drake — disse ele, quase reverente. — Semi-elemental. Extremamente valioso.

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Pahn-Tu e o drake da água

E ali ficaram, por um instante, os sobreviventes de Athas diante de outra relíquia viva de um mundo torto: um filho da água guardando um poço no meio do deserto, um antigo do Azul ressecando ao lado dele, e um grupo inteiro entre a sede e a cobiça.

O deserto, mais uma vez, oferecia vida com uma mão e morte com a outra.


Notas de Rodapé:

  • Veecent retorna ao grupo após dois meses vivendo com uma tribo de halflings selvagens.
  • Pahn-Tu identifica os Dune Reapers como possíveis criaturas moldadas em tempos antigos, talvez associadas a Rajaat.
  • O grupo obteve 50 gp em partes extraídas dos Dune Reapers.