As Mandíbulas do Império
Dia 99 — O cerrado ao sul dos penhascos Rhul-thaun
O império tinha mandíbulas.
Elas desciam do céu presas a asas de quitina, zumbindo sobre o cerrado seco como lâminas raspando pedra. Os dois Jalath'gak pairavam sobre a marcha dos cativos com seis metros de envergadura cada um, corpos longos, garras recurvadas, olhos sem piedade animal. Nas costas deles, presos em pequenos howdahs de fibra e resina, dois zik-trin de carapaça escura observavam o mundo com olhos de foco psíquico. Não eram simples cavaleiros. Eram condutores. Mentalistas. Domadores de vida modificada.
Abaixo, doze soldados j'ez carregavam doze kreen cativos, todos presos por amarras de resina cristalizada. Os prisioneiros eram da espécie que o grupo reconhecia como nativa do planalto. Os captores, não. Tinham a carapaça negra das falanges imperiais vistas perto da grande fenda, disciplina de quartel e a arrogância silenciosa de quem acredita que a violência já foi autorizada por alguma lei distante.
Pahn-Tu tentou abrir contato. O ar mental ao redor do grupo se encheu daquela pressão aquosa, antiga, como memória de mar num mundo sem mar. Mas a comunicação bateu contra uma barreira. Os pilotos não permitiam fala com os cativos. Não permitiam fala com os soldados. Só com eles.
"Eles dizem que estes kreen são propriedade imperial", traduziu o Rhulisti, a voz telepática carregada de nojo frio. "Serão levados para processamento."
— Processamento — repetiu Wener, devagar.
O meio-gigante segurou o martelo com mais força. A palavra não combinava com prisioneiros vivos. Não combinava com nada que ainda tivesse direito de gritar.
M'uamba olhava para os Jalath'gak com atenção estreita. O feiticeiro via mais do que garras e asas. Via intenção na carne, desenho arcano na biologia, uma técnica que tocava de longe os segredos da Arte antiga.
— Eles não estão só escravizando — disse ele. — Estão moldando.
Pahn-Tu confirmou sem prazer.
"Vida modificada. De modo grosseiro, mas reconhecível. Alguma casta deste império redescobriu fragmentos do que meu povo sabia fazer. O processamento provavelmente transformaria estes selvagens em outra casta útil."
Veecent cuspiu no chão seco. A voz amaldiçoada, fina demais para o corpo robusto de guerreiro que a carregava, saiu amarga.
— Então a gente quebra a ferramenta antes que eles usem.
Adnaan não respondeu de imediato. Observava distância, vento, formação. O arco já estava na mão. Garra da Noite, invisível perto dele, sentia a tensão do companheiro e devolvia pelo elo um rosnado baixo, impaciente.
— Salvamos os cativos — disse o caçador, por fim. — Sem deixar os pilotos chamarem reforços.
Wener ergueu o escudo.
— Então começa.
A investida contra os escravagistas
A primeira flecha de Adnaan atravessou o ar antes que qualquer palavra imperial pudesse virar ameaça.
Ela saiu do arco com um estalo seco, cortando os oitenta e cinco pés entre o grupo e o primeiro Jalath'gak como uma linha de julgamento. O zik-trin no howdah percebeu tarde demais. Sua mente tentou torcer o curso do projétil, empurrá-lo para longe com força invisível, mas a flecha encontrou carne e quitina, arrancando um clique agudo da criatura.
Wener veio logo depois. O martelo mágico deixou sua mão como uma pedra lançada por gigante, girando com peso violeta contra o mesmo alvo. Desta vez, o mentalista estava pronto. O ar diante do golpe ondulou. O martelo desviou no último instante, raspando a borda do howdah antes de retornar para a mão do meio-gigante.
— Ele puxou o golpe — disse Wener, os olhos fixos no piloto.
M'uamba ergueu o cajado.
— Então façamos o tempo puxar por nós.
O feitiço se abriu como uma segunda pulsação dentro do corpo dos companheiros. A percepção acelerou. O vento ficou lento. O estalo dos chat'kcha inimigos pareceu se alongar no ar, bumerangues de saliva cristalizada girando sob o sol com brilho leitoso e lâminas irregulares.
Os soldados j'ez avançaram em falanges quebradas, arremessando as armas enquanto corriam. Os primeiros chat'kcha bateram em Wener como chuva de pedra. Alguns ricochetearam na armadura de bronze. Outros arrancaram cortes rasos de pele e couro. Dano pequeno para um meio-gigante, mas não irrelevante; cada impacto era uma contagem do inimigo, uma medição da muralha.
Adnaan recebeu os seus também. Dois bumerangues passaram perto demais, um abrindo um corte no ombro. O caçador não desviou o olhar dos pilotos.
— Garra — murmurou, mais pelo elo que pela boca. — Espera.
O primeiro Jalath'gak mergulhou.
O piloto zik-trin golpeou antes que a montaria tocasse o chão. Uma força telecinética atingiu Adnaan no peito como um punho sem corpo, expulsando ar dos pulmões e empurrando poeira ao redor dos pés dele. No mesmo movimento, a criatura alada pousou ao lado de Wener. As mandíbulas estalaram perto do escudo. A mordida falhou, mas as garras não. Três cortes abriram sulcos na defesa do meio-gigante, arrancando faíscas e sangue.
Wener plantou os pés.
— Aqui.
O segundo Jalath'gak veio pelo outro flanco. O piloto o guiou em um arco baixo, quase rente ao capim. A sombra das asas passou sobre Veecent um instante antes das mandíbulas se fecharem em torno dele.
O elfo amaldiçoado foi erguido do chão com um impacto que teria dobrado um guerreiro menor ao meio. As presas prenderam tronco, armadura e braço. Veecent rosnou, mais irritado que assustado, e o machado Mantaster brilhou em suas mãos.
— Péssima escolha de refeição — disse ele.
Mesmo preso, acelerado pela magia de M'uamba, ele golpeou. O primeiro corte entrou fundo na lateral da montaria, abrindo uma fenda escura na quitina. O segundo pegou de raspão, mas fez o Jalath'gak estremecer e apertar ainda mais as mandíbulas.
Ao redor, os soldados fecharam. Um j'ez tentou travar Veecent pela lateral e errou. Outro golpeou Adnaan. Outros tantos continuaram marcando Wener com arremessos de cristal. O campo inteiro virou ruído de asas, estalos, lâminas e poeira.
No meio dele, M'uamba permanecia imóvel por um instante longo demais.
Então sua magia terminou de se formar.
O cone prismático nasceu diante dele como um leque impossível de luz: cores demais para olhos secos, um semicírculo cintilante que rasgou o ar e lançou reflexos sobre carapaças negras, asas, escudos de quitina e rostos humanos. Não era beleza. Era julgamento arcano em espectro puro.
Um dos soldados simplesmente deixou de existir como corpo coerente, pulverizado em fragmentos finos que se misturaram à poeira. Outro endureceu no meio do movimento, a carapaça e a carne travadas numa petrificação súbita. O segundo piloto zik-trin, no howdah do Jalath'gak que segurava Veecent, tombou inconsciente, a cabeça batendo contra a estrutura de fibra. Outros resistiram, cambaleantes, olhos brilhando de ódio e medo.
— Isso — disse M'uamba, sem sorrir — foi só a advertência.
O cone prismático de M'uamba
Adnaan aproveitou a abertura.
A magia de aceleração fazia o mundo parecer um pouco mais lento, mas a mira do caçador já era rápida antes dela. Duas flechas partiram em sequência contra o primeiro zik-trin. O piloto ergueu uma defesa psíquica e desviou uma delas com um estalo de ar comprimido. A segunda atravessou a barreira por um ângulo impossível, cravando-se fundo.
O mentalista vacilou.
Wener viu.
O meio-gigante respirou uma vez, e com a respiração veio a energia curativa, uma onda biopsiônica que correu pelo grupo como calor sob a pele. Cortes fecharam parcialmente. Sangue parou de jorrar. Ossos e músculos encontraram mais um pouco de força onde Athas já começava a cobrar. Wener puxou parte dessa mesma arte para si, endireitou os ombros e lançou o martelo.
Desta vez o zik-trin não conseguiu desviar.
O golpe acertou com som de cerâmica quebrando. O corpo do piloto caiu no howdah e depois deslizou, sem vida, preso entre correias e resina. O primeiro comandante tombara.
Mas a montaria não caiu com ele.
Sem mente guiando sua fome, o Jalath'gak atacou por instinto. As garras vieram contra Wener de novo, arranhando bronze, couro e carne. As mandíbulas buscaram a garganta do meio-gigante, encontraram escudo, recuaram, voltaram.
Do outro lado, o Jalath'gak que segurava Veecent começou a sugar.
Não foi mordida comum. As presas se enterraram e a criatura bebeu sangue com uma contração viscosa do corpo inteiro. Veecent arqueou as costas, sentindo a força escapar não só pela ferida, mas por uma fome que parecia puxar calor do peito. O piloto dormia, vencido pelo prisma de M'uamba, mas a montaria não precisava dele para se alimentar.
— Ah, não — Veecent rosnou, os dentes cerrados. — Meu sangue não é tributo imperial.
Mantaster girou numa violência curta, limitada pelo aperto das mandíbulas, mas ainda brutal. O machado acertou inimigos ao redor como se o elfo tivesse transformado o próprio sofrimento em eixo de ataque. Um soldado j'ez caiu. Outro cambaleou com a carapaça aberta. Um terceiro recuou tarde demais.
Perto dali, os soldados perceberam a ameaça real de M'uamba.
Os chat'kcha vieram contra o feiticeiro em sequência, e logo depois lanças de cristal e garras. M'uamba ergueu defesas, moveu-se por centímetros, desviou do que podia. Um bumerangue passou tão perto que cortou uma mecha de cabelo. Outro rasgou tecido e pele. A morte o tocou de leve várias vezes, como quem escolhe onde cravar o dedo.
Ele sobreviveu.
Milagrosamente, talvez. Ou porque ainda havia magia demais nele para que a morte se sentisse confortável.
— Se vocês insistem em interromper meu trabalho — disse M'uamba, a voz baixa — eu vou ter que simplificar o problema.
Mas ainda não havia espaço para o grande fogo. Os companheiros estavam perto demais, os cativos perto demais, as linhas misturadas demais.
Adnaan tomou a decisão antes que alguém pedisse.
— Garra, liberte os presos.
A ordem foi pensamento e palavra ao mesmo tempo. Garra da Noite, invisível, disparou pelo campo como uma sombra sem corpo, desviando de pernas quitinosas e asas quebradas, indo na direção das amarras de resina. Pelo elo, Adnaan sentiu a prontidão do companheiro: libertar, proteger, morder se preciso.
Então o caçador desapareceu.
Um salto psíquico o levou para uma posição limpa, com linha de tiro aberta para o Jalath'gak que carregava Veecent. Ele surgiu já puxando a corda do arco. O mundo estreitou: poeira, asa, mandíbula, sangue do aliado, piloto adormecido, ponto vulnerável sob a junta da carapaça.
A primeira flecha entrou.
A segunda matou.
O Jalath'gak soltou Veecent com um espasmo violento, o corpo alado perdendo força antes de bater no chão. Ao morrer, a criatura pareceu tentar prender a própria vida nas asas, mas Adnaan puxou essa energia no instante exato. A força vital do monstro correu pela flecha, pelo arco, pela intenção do caçador, e foi desviada para Veecent como uma brasa roubada de um inimigo.
O elfo caiu de pé, cambaleante, ainda ferido, mas respirando melhor.
Adnaan não ergueu a voz.
— De pé.
Veecent limpou sangue do queixo e olhou para o corpo do inseto alado.
— Eu estava de pé. Só estava fazendo reconhecimento dentro da boca dele.
Veecent contra o Jalath'gak
A batalha perdeu a forma de emboscada e virou matadouro.
Wener curou o grupo de novo, forçando energia biopsiônica através de corpos que já tinham recebido feridas demais para um único meio-dia. O esforço pesou nele. Ainda assim, o martelo voou contra o Jalath'gak remanescente, abrindo outra rachadura na carapaça da criatura.
A resposta veio como uma armadilha de carne.
O Jalath'gak avançou, mandíbulas abrindo de lado, e prendeu Wener.
O meio-gigante tentou travar a boca da criatura com escudo e braço, mas as presas encontraram espaço. O corpo colossal foi erguido parcialmente do chão, e a montaria começou a beber. Não era só sangue. Era calor, vigor, resistência. A criatura se recuperava enquanto Wener enfraquecia.
— Wener! — gritou Adnaan.
O meio-gigante tentou responder, mas a pressão das mandíbulas transformou a palavra em um som afogado. Ainda assim, seus olhos permaneceram firmes.
M'uamba, cercado, mudou de tática.
Um disparo de energia arcana atingiu um j'ez próximo com força concentrada, abrindo uma fenda fumegante na carapaça. Em seguida, acelerado pela própria magia, o feiticeiro lançou dois tiros hurlantes, projéteis de som e força que distorceram o ar ao redor do alvo. O soldado cambaleou, quase partido. M'uamba então tocou o bracelete mágico no próprio pulso. Uma película invisível de defesa se fechou sobre ele, fina como vidro e dura como decisão.
— Agora — murmurou — talvez eu consiga terminar uma frase.
Não conseguiu.
Outro soldado veio contra ele. Adnaan matou um j'ez com uma flecha certeira, puxou a vitalidade do inimigo morto para fechar parte das próprias feridas, e saltou pelo espaço para ficar ao lado de M'uamba. Surgiu entre o feiticeiro e a lâmina seguinte.
— Atrás de mim — disse o caçador.
M'uamba arqueou uma sobrancelha.
— Tecnicamente, minha melhor posição é onde eu ainda consigo ver todos eles.
— Atrás de mim — repetiu Adnaan.
Dessa vez, o feiticeiro aceitou.
Veecent, livre, fez o que sempre fazia quando a sorte tentava enterrá-lo: escolheu alguém para cair antes dele. Mantaster desceu sobre um soldado j'ez e o derrubou. Outro veio pela lateral. O elfo girou, bloqueou tarde demais, recebeu uma estocada, devolveu com um golpe que arrancou equilíbrio e vida.
Mas os inimigos ainda eram muitos.
Um j'ez acertou Wener enquanto o meio-gigante lutava contra as mandíbulas do Jalath'gak. Outro passou pelas defesas de Veecent. Mais um atingiu M'uamba apesar da tentativa de Adnaan de bloquear o avanço. O campo se encheu de cortes pequenos, médios, grandes; da matemática cruel de todo combate em Athas, onde a primeira ferida raramente mata, mas a décima costuma terminar a discussão.
O Jalath'gak sugou Wener de novo.
Desta vez, o meio-gigante apagou.
O corpo dele ficou pesado nas mandíbulas da criatura, o martelo caindo da mão por um instante antes de retornar inerte para perto do dono. A montaria, saciada, ergueu a cabeça. Sem piloto vivo, sem comando, sem disciplina, escolheu a sobrevivência. Bateu as asas, levantando poeira e sangue, e começou a se afastar carregando o corpo morto do zik-trin preso ao howdah.
Wener despencou quando as mandíbulas se abriram, inconsciente no chão quente.
— Não — disse Veecent.
Ele tentou avançar, mas os soldados o fecharam.
Vieram de três lados, talvez quatro. Lança, garra, chat'kcha curto demais para arremesso e usado como lâmina. Veecent matou mais um. Feriu outro. Resistiu com a teimosia de quem já fora amaldiçoado, petrificado, caçado por coisas piores e ainda assim encontrava um jeito de xingar o destino em pé.
Então um golpe entrou fundo demais.
O elfo caiu de joelhos. Outro impacto o derrubou de lado. Mantaster ficou preso sob a mão dele, dedos ainda fechados no cabo.
Adnaan viu Wener caído. Viu Veecent caído. Viu Garra da Noite prestes a rasgar as amarras dos cativos, mas ainda longe demais para que eles mudassem o curso do combate. Viu M'uamba cercado por inimigos que finalmente tinham compreendido que matar o feiticeiro talvez fosse a única forma de sobreviver.
O caçador respirou uma vez.
Atirou.
A flecha acertou um j'ez que tentava atravessar para cima de M'uamba, quase derrubando-o. Adnaan se moveu para interceptar o seguinte, aceitou o golpe no próprio corpo para atrasar a lâmina, e abriu o espaço que faltava.
— Agora — disse ele.
M'uamba não respondeu.
Não havia necessidade.
O feiticeiro ergueu o cajado, e a bola de fogo nasceu como um sol pequeno e rancoroso.
Ela atravessou o espaço criado por Adnaan, passou além dos corpos caídos dos aliados, e explodiu no centro dos soldados j'ez restantes. O cerrado inteiro pareceu prender a respiração antes de queimar. Fogo vermelho-dourado engoliu carapaças negras, lanças de cristal, escudos de quitina, resina, poeira e gritos. Por um instante, o mundo foi apenas calor e luz.
Quando a chama baixou, os últimos soldados imperiais estavam no chão.
O cheiro de quitina queimada se espalhou pelo campo.
A bola de fogo de M'uamba
O silêncio depois do combate não foi paz.
Foi o tipo de silêncio que vem quando todos os corpos que queriam matar você pararam de se mover, mas o seu próprio corpo ainda não acredita nisso.
Adnaan foi primeiro até Veecent. M'uamba, respirando com dificuldade, ajoelhou-se ao lado do elfo. Wener ainda estava caído, enorme e imóvel, com marcas profundas das mandíbulas no corpo. A energia curativa já não vinha dele; precisava voltar para ele.
— Wener — chamou Adnaan.
Nada.
O caçador pressionou a mão contra o ferimento do meio-gigante enquanto M'uamba avaliava o que ainda podia ser feito sem transformar socorro em experimento.
— Ele ainda está vivo — disse o feiticeiro.
— Então acorde ele.
— Isso é medicina, não ordem de marcha.
Adnaan olhou para ele.
M'uamba suspirou.
— Está bem. Também é ordem de marcha.
Entre energia remanescente, técnica, pressão nas feridas e a insistência rude de quem se recusa a deixar um companheiro morrer no chão, Wener voltou com um arquejo. Os olhos abriram, desfocados por um instante, depois duros.
— O inseto?
— Fugiu — disse Adnaan. — Sem piloto.
Wener tentou se sentar. Falhou. Tentou de novo e conseguiu.
— Covarde.
Veecent acordou pouco depois, tossindo poeira e sangue.
— Eu matei quantos?
M'uamba limpou as mãos no tecido chamuscado.
— O bastante para continuar insuportável.
— Então foi um bom combate.
Garra da Noite terminou de rasgar as primeiras amarras de resina. Os cativos kreen se moveram com cautela, assustados demais para confiar de imediato, mas inteligentes o bastante para reconhecer a direção da libertação. As mandíbulas deles estalaram em um dialeto thri-kreen mais áspero, local, mas compreensível para quem já conhecia parte da língua.
Pahn-Tu observou os libertos com expressão indecifrável.
"Selvagens", disse ele, sem esconder o julgamento. "Mas vivos."
Wener, ainda sentado, olhou para o Rhulisti.
— Hoje isso basta.
O espólio imperial foi recolhido com cuidado. O foco psíquico do piloto sobrevivente valia ouro, assim como sua arma. As lanças de cristal e os escudos de quitina dos soldados poderiam ser aproveitados. Do Jalath'gak morto, Adnaan e M'uamba identificaram um órgão hematófago, ainda úmido e pulsante mesmo depois da morte, matéria rara para quem soubesse vender ou estudar sem nojo.
Mas o prêmio mais perigoso ainda respirava.
O segundo zik-trin permanecia inconsciente, derrubado pelo prisma de M'uamba, amarrado agora com toda a cautela que se reserva a um inimigo capaz de mover o mundo sem tocar nele. Mesmo preso fisicamente, sua mente ainda era uma arma. Talvez acordasse em fúria. Talvez tentasse negociar. Talvez chamasse algo que o grupo ainda não tinha visto.
Adnaan ficou diante dele, arco em mãos.
— Ele bloqueou a fala dos cativos.
M'uamba olhou para o prisioneiro com interesse sombrio.
— Ele também sabe coisas. Sobre o império, sobre a fenda, sobre o processamento, sobre essa manipulação de vida.
Veecent se apoiou no machado, ainda pálido.
— E sobre como é perder uma montaria para uma flecha.
Wener encarou o zik-trin por algum tempo.
— Quando acordar, vai falar.
Pahn-Tu inclinou a cabeça, os olhos azuis fixos no mentalista imperial.
"Se a mente dele for organizada como a dos outros, pode resistir mais do que vocês esperam."
— Então vamos descobrir o quanto — disse Wener.
Ao redor deles, os kreen libertos se reuniam sob o sol, feridos, vivos, ainda tentando entender o que fazer com a liberdade recuperada no meio de um campo de cadáveres. Ao norte, os penhascos Rhul-thaun continuavam invisíveis, mas mais próximos. Ao sul e oeste, a grande fenda ainda abria sua passagem entre mundos, e do outro lado dela havia um império que capturava povos para transformá-los.
O grupo tinha vencido uma patrulha.
Mas a patrulha tinha mostrado o rosto de algo maior.
Em Athas, até a vitória deixava marcas de dentes.
Notas de Rodapé:
- Os kreen imperiais usam castas distintas: os soldados j'ez formam a infantaria, enquanto os zik-trin demonstram capacidades psíquicas e comandam Jalath'gak modificados.
- O termo "processamento", usado pelos captores, sugere transformação ou remodelagem biológica dos kreen capturados para integração forçada ao império.
- O Jalath'gak demonstrou comportamento hematófago: ao prender Wener e Veecent nas mandíbulas, sugou sangue e recuperou parte da própria vitalidade.
- A morte do Jalath'gak que prendia Veecent foi causada pelas flechas de Adnaan, que também redirecionou a energia vital da criatura para reerguer o aliado.



