A Pedra que Bebe o Vento

Dias 99 a 101 — O cerrado, as escarpas Rhul-thaun e a descida para Mir-Sath

O sangue ainda secava na terra quando Wener voltou a respirar.

A poção desceu amarga por sua garganta, ardendo como se alguém tivesse dissolvido o sol em cerâmica líquida. O meio-gigante abriu os olhos com um som baixo, meio rosnado, meio tosse, e por um instante pareceu tentar entender por que o céu ainda estava acima dele. As marcas das mandíbulas do Jalath'gak atravessavam seu corpo em linhas fundas. A criatura o havia mordido, bebido, pesado sobre ele como um pedaço vivo do Império.

Wener tentou se erguer.

— Devagar — disse Adnaan.

O caçador estava ajoelhado perto dele, uma mão ainda próxima do arco. Garra da Noite farejava o ar em círculos invisíveis, inquieto com o cheiro de sangue, quitina rompida e psíquico queimado. O campo ao redor permanecia coberto pelos restos do combate: lanças de cristal, escudos de quitina, amarras de resina partida, manchas negras onde o fogo de M'uamba havia transformado soldados j'ez em cinza.

Wener não obedeceu. Sentou-se com esforço, como uma muralha tentando lembrar que ainda era muralha.

— Veecent?

— Vivo — respondeu M'uamba, sem levantar os olhos do ferimento que examinava. — O que, considerando o método usual dele de atrair tragédias, já é quase um princípio arcano.

Veecent soltou um ruído que talvez fosse riso, talvez fosse dor. A voz amaldiçoada saiu fina demais para a quantidade de sangue no chão.

— Anote isso. Estou melhorando.

Wener estendeu a mão. A energia psíquica veio mais lenta do que de costume, arrancada de reservas que o próprio corpo ainda não aceitava possuir. Mesmo assim, quando tocou Veecent, o calor da cura atravessou carne rasgada, fechou cortes, empurrou a morte para longe com a teimosia bruta de quem não negocia com ela. Depois vieram os primeiros socorros, panos apertados, água medida em goles cautelosos, respirações contadas.

Athas cobrava tudo. Até a sobrevivência vinha com recibo.

Os kreen libertos esperavam a alguns passos, agrupados em silêncio. Tinham sido prisioneiros havia pouco; agora eram testemunhas de algo que ainda não sabiam nomear. Alguns tocavam as próprias amarras partidas como se o corpo precisasse confirmar a liberdade. Outros olhavam para os cadáveres imperiais com mandíbulas rígidas, entre medo e satisfação.

Um deles se aproximou.

Era mais magro que os soldados j'ez, menos polido pela disciplina imperial, mas não menos atento. Sua carapaça carregava marcas de cerrado, poeira antiga, arranhões de caça e sobrevivência. Quando falou, os estalos da língua thri-kreen saíram em um dialeto duro, estranho, cheio de cortes que vinham de viver longe das tribos do outro lado das montanhas.

Adnaan inclinou a cabeça, ouvindo.

M'uamba também entendeu parte. Não tudo. O bastante para sentir que aquele idioma era parente de línguas conhecidas, mas criado sob outro céu, entre outras presas.

— Ele se chama Tchak-tik — disse Adnaan.

O kreen tocou o próprio peito com duas mãos e repetiu o nome em cliques secos.

— Fala por eles? — perguntou Wener.

Tchak-tik olhou para o meio-gigante, para M'uamba, para Veecent, para Garra da Noite que ele não podia ver mas talvez pudesse sentir. Depois voltou os olhos compostos para Adnaan.

— Fala — disse o caçador. — E lembra.

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Tchak-tik conversa com o grupo depois da batalha

As lembranças de Tchak-tik não vieram como história ordenada. Vieram como terra sacudindo sob as patas, como poeira vermelha subindo no oeste, como bandos inteiros parando de caçar para ouvir o mundo partir.

Meses antes, disse ele, houve um tremor.

Não um tremor comum, desses que fazem pedras rolarem e ninhos desabarem. A terra inteira rugiu. O abalo veio do oeste, das escarpas, e depois outros seguiram ao longo de um dia inteiro, como se algo imenso tentasse se libertar de baixo da crosta. Quando tudo cessou, uma nuvem vermelha subia contra o horizonte. Nas semanas seguintes, batedores das tribos kreen encontraram a fenda: um rasgo colossal no cerrado, uma ferida aberta entre o planalto e as terras baixas.

Adnaan ouviu sem interromper. O relato explicava a passagem que o Império agora reivindicava, a estrada no fundo do abismo, a presença de falanges negras onde antes deveria haver só pedra quebrada e vento.

— Eles viram a fenda depois do terremoto — disse ele ao grupo. — Não sabiam do Império antes.

M'uamba encarou a direção oeste, onde a cicatriz do mundo já ficara para trás mas ainda parecia pesar no ar.

— Então a queda abriu a porta.

Pahn-Tu, imóvel como uma estátua de outro mundo, observava Tchak-tik com olhos azuis demais para o presente.

"A porta sempre esteve lá", disse a voz do Rhulisti na mente deles, fria como água antiga. "O terremoto apenas removeu a ignorância da frente dela."

Veecent limpou sangue seco do canto da boca.

— Frase bonita para "agora os insetos imperiais conseguem subir".

Pahn-Tu não se dignou a responder.

Quando perguntaram por Mir-Sath, Tchak-tik não reconheceu o nome. Nenhuma cidade das escarpas. Nenhum assentamento vertical. Seu povo não escalava bem, explicou, e sempre evitara o paredão. Mas ele conhecia uma formação próxima às escarpas: uma pedra alta, torta, perfurada por vento constante, onde pequenos voadores às vezes passavam sobre estranhas criaturas aladas.

Ele chamou o lugar de Pedra que Bebe o Vento.

Kibb se agitou no anel de Wener antes mesmo da tradução terminar.

O meio-gigante levou a mão ao anel, ouvindo aquela voz que cheirava a altura, coral seco e saudade.

— Ele diz que pode ser uma marca Rhul-thaun — disse Wener. — Um ponto de descida. Talvez instruções para quem perdeu montaria.

Adnaan repetiu a descrição para Tchak-tik, pedindo detalhes: formato da pedra, direção, marcas, distância até o paredão. O kreen respondeu com paciência cautelosa. Não conhecia Mir-Sath, mas conhecia vento, rocha e perigo. Conhecia o bastante.

Ao partir, Tchak-tik ofereceu cordas de resina.

Não eram cordas humanas. Eram fios grossos, flexíveis, translúcidos em pontos onde a luz atravessava, resistentes como tendão seco. Tinham cheiro de árvore ferida e saliva kreen. Os libertos as deixaram no chão entre o grupo e eles como pagamento, despedida e reconhecimento.

Adnaan tocou o material, testando a tensão.

— Servem.

— Para descer três quilômetros de penhasco? — perguntou Veecent.

Adnaan olhou para as escarpas distantes.

— Para começar.

Os kreen caminharam para leste.

Não houve discurso. Tchak-tik apenas inclinou a cabeça uma vez, e sua gente seguiu com ele para o cerrado, levando a liberdade recém-arrancada das mandíbulas do Império. Por algum tempo, o grupo ficou olhando a caravana se afastar. Em Athas, libertar alguém raramente significava salvá-lo para sempre. Mas significava alguma coisa. Naquele mundo, alguma coisa já era muito.

Restava o prisioneiro.

O zik-trin sobrevivente estava vendado, amarrado e imóvel, corpo pequeno demais para a quantidade de ameaça que carregava. O cone prismático de M'uamba o havia derrubado, mas não diminuído. Mesmo inconsciente, parecia uma faca deixada no escuro: quieta, sim, mas ainda feita para cortar.

Quando acordou, não se debateu.

Isso foi o primeiro aviso.

Adnaan se ajoelhou diante dele. Garra da Noite estava perto, invisível, mandíbulas entreabertas, aguardando uma ordem que talvez viesse.

— Você vai responder — disse o caçador.

A resposta não veio pelos ouvidos.

Veio por dentro.

"Vocês não são destas terras."

A voz mental era seca, precisa, sem a vastidão marinha de Pahn-Tu. Era uma ferramenta bem afiada, não uma memória antiga. Ela encostou na mente de Adnaan como uma garra procurando frestas.

"Quem é o mestre de vocês?"

Adnaan estreitou os olhos.

— Sai da minha cabeça.

"Você é o feiticeiro? Qual rei você serve?"

A sondagem veio junto com a pergunta, um impulso psíquico tentando forçar a mente a entregar resposta antes que a boca escolhesse mentira. Adnaan resistiu. Não com técnica refinada de acadêmico, mas com instinto de predador: fechar, prender, morder de volta. Garra da Noite rosnou pelo elo, fúria compartilhada.

Pahn-Tu virou o rosto lentamente para o prisioneiro.

Pela primeira vez desde o combate, pareceu quase divertido.

"Ele não pergunta para ouvir da sua boca", disse o Rhulisti. "Pergunta para obrigar sua mente a responder. E tenta fazer o mesmo comigo."

O desprezo que veio depois foi tão limpo que quase parecia cirúrgico.

"Uma ferramenta brincando com fragmentos da Arte. Patético."

O zik-trin não reagiu ao insulto, ou reagiu bem demais para mostrar. A pressão mental mudou de ângulo.

"Para qual povo o pequeno ancestral está levando vocês?"

Wener endireitou o corpo.

— Kibb?

"Por que carregam uma mente morta?"

O silêncio que se seguiu foi curto.

Adnaan não levantou a voz.

— Garra.

O zhackal atacou.

Suas mandíbulas se fecharam onde deveria haver pescoço.

Morderam ar.

As amarras caíram vazias sobre a terra. A venda tombou junto, inútil. Nenhum brilho, nenhuma explosão, nenhum gesto dramático: só ausência. O prisioneiro desaparecera entre um instante e outro, deixando para trás o contorno exato de sua fuga.

Veecent olhou para as cordas vazias.

— Eu odeio mentalista.

Wener apertou o martelo.

— Ele sabe sobre nós.

— Sabe que resistimos — disse Adnaan.

M'uamba encarava o lugar vazio com a expressão de quem guardava mentalmente uma equação para odiá-la depois.

— E sabe que estamos levando Pahn-Tu e Kibb para os Rhul-thaun.

Pahn-Tu não demonstrou preocupação. Isso, por si só, não tranquilizava ninguém.

"Então convém que cheguemos antes que a informação encontre utilidade."

O grupo seguiu viagem.

Naquela noite, a magia de M'uamba ergueu abrigo contra vento, frio e predadores. A bolha invisível fechou-se ao redor deles como casca fina, segurando um pouco da brutalidade do mundo do lado de fora. Antes de acampar, Adnaan deu um salto no ar, corpo sumindo por um instante contra a luz morrente, reaparecendo em um ponto onde sombra e distância lhe permitiram ver mais longe.

Quando voltou, trazia poeira no rosto e certeza nos olhos.

— Estamos perto das escarpas. Amanhã chegamos antes do fim do dia.

Ninguém comemorou.

As escarpas Rhul-thaun não eram destino. Eram pergunta.


O Dia 100 levou o grupo até a beira do mundo.

O cerrado afinou, a terra endureceu, o vento mudou de voz. Ao longo da tarde, o horizonte deixou de parecer distante e passou a parecer ausente. O chão simplesmente terminava adiante, cortado por um paredão que caía por quilômetros até um pântano verde-escuro, vaporoso, onde a umidade subia como respiração de coisa adormecida.

Do alto, Mir-Sath não aparecia.

Kibb já havia avisado. A cidade dos Rhul-thaun fora construída para não ser vista de cima, escondida nas faces verticais do mundo, protegida contra olhos errados e quedas certas. Ainda assim, a ausência tinha peso. Wener sentiu o anel frio contra a pele, como se a alma dentro dele prendesse o fôlego.

— Ele esperava sentir alguma coisa — disse o meio-gigante.

— E sente? — perguntou Adnaan.

Wener demorou.

— Vento.

Veecent se aproximou o bastante da borda para se arrepender.

— Ótimo. Três quilômetros de queda e a resposta é vento.

Abaixo, além do pântano na base das escarpas, a savana vermelha se espalhava por centenas de quilômetros. Era outro mundo visto de cima: vasto, feroz, aberto. E nele, contra o sol poente, havia uma cidade.

Não era pedra.

Brilhava em âmbar esverdeado, como resina antiga capturando luz do fim do dia. Torres, arcos ou cascas se erguiam na distância, formas difíceis de julgar pelo ângulo e pela névoa. Não parecia ruína. Não parecia vila. Parecia algo vivo ou feito por criaturas que pensavam em colmeia, vento e tempo de modo diferente.

M'uamba ficou olhando.

— Aquilo não é Mir-Sath.

Pahn-Tu observou a cidade distante com uma quietude que incomodava mais que surpresa.

"Não."

— Você sabe o que é? — perguntou Wener.

"Ainda não."

Veecent soltou um riso baixo.

— Quando até ele diz "ainda", eu começo a preferir ignorância.

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A vista do alto das escarpas

A Pedra que Bebe o Vento ficava perto da borda, exatamente onde Tchak-tik havia indicado.

Era uma formação alta, irregular, perfurada por séculos de ar empurrado contra rocha. O vento entrava por fendas e saía por aberturas estreitas com um som baixo, quase de garganta. Por isso o nome fazia sentido: a pedra bebia o vento e devolvia um lamento.

Nas faces protegidas da erosão, havia marcas.

Não eram arranhões naturais. Linhas talhadas, sinais repetidos, setas estilizadas, curvas que talvez indicassem correntes de ar, pontos de ancoragem, advertências. Kibb despertou no anel de Wener com uma intensidade que fez o meio-gigante apertar os dentes.

— "Rota segura" — traduziu Wener. — "Assentamento próximo."

O vento soprou pela pedra, e por um momento a frase pareceu zombaria.

Adnaan passou os dedos pelas marcas. Algumas estavam partidas. Outras haviam sido deslocadas por rachaduras recentes. O terremoto chegara ali também. A rota talvez ainda existisse, mas a pedra que a ensinava já não era a mesma.

— A descida foi afetada — disse ele.

M'uamba olhou para o sol baixando.

— Descer agora seria oferecer nossa estupidez à gravidade.

— Eu ia dizer isso com mais delicadeza — disse Wener.

Veecent deu um passo para longe da borda.

— Eu não.

Decidiram descansar.

O acampamento naquela noite teve gosto de antecipação. O abrigo de M'uamba segurava o pior do vento, mas não apagava o som da Pedra que Bebe o Vento. Ela continuava respirando no escuro. Às vezes parecia voz. Às vezes parecia aviso.

Adnaan dormiu pouco.

Garra da Noite também.


No Dia 101, o grupo começou a descer.

Não foi uma escalada. Foi uma negociação com a morte.

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No topo das escarpas, junto à Pedra que Bebe o Vento

O paredão não oferecia caminho generoso. Havia saliências, fissuras, lajes inclinadas, trechos em que rocha natural se misturava a antigas intervenções Rhul-thaun: degraus quase apagados, encaixes para mãos pequenas, canais onde cordas ou arreios talvez tivessem passado quando Mir-Sath ainda respirava vida. Mais abaixo, coral fossilizado surgia dentro da pedra, como se o mar antigo tivesse tentado subir pelas entranhas da montanha e morrido no caminho.

Adnaan foi primeiro sempre que podia.

O caçador desaparecia em sombras estreitas, atravessando espaços impossíveis com o dom do Lightning Shadows. Surgia em uma saliência adiante, prendia cordas, testava peso, soltava outra linha. Seu corpo parecia mais leve ali, não porque a queda o perdoasse, mas porque ele a entendia rápido demais. Cada sombra era uma mão estendida. Cada fenda, uma escolha.

— Firme — dizia ele.

Wener segurava as cordas como se pudesse convencer o mundo a não se mover. Braços de meio-gigante tensionavam resina kreen e fibra improvisada, mantendo linhas estáveis enquanto os outros desciam. Quando Garra da Noite chegou ao primeiro trecho impossível para patas, Wener examinou as cordas, a largura do zhackal, o ângulo do paredão e começou a tecer.

Veecent observou por alguns instantes.

— Você está fazendo uma cadeira para o lobo?

— Para o irmão dele — corrigiu Wener.

Adnaan, já numa saliência abaixo, ergueu os olhos.

— Funciona?

Wener puxou a última volta da corda de resina.

— Vai funcionar.

Garra da Noite não gostou da cadeira.

O elo deixou isso claro para Adnaan antes mesmo do primeiro rosnado audível. Havia humilhação predatória em ser suspenso como carga, irritação de patas sem chão, desconfiança de vento vindo de baixo. Mas havia também confiança. Garra tolerou a engenhoca porque Wener a fez, porque Adnaan esperava, porque matilha às vezes significava aceitar uma indignidade para não virar mancha no pântano.

M'uamba convocou ajuda.

Seu espírito familiar surgiu com a naturalidade inquietante das coisas que pertencem um pouco a este mundo e um pouco a outro. O diabo da garrafa veio junto, pequeno, útil e certamente satisfeito demais com a chance de comentar sobre decisões perigosas sem ser diretamente responsável por elas.

— Se alguém cair — disse Veecent — eu prefiro que seja ele.

M'uamba não olhou para o elfo.

— Ele provavelmente também prefere.

O primeiro trecho cedeu aos poucos.

O grupo desceu metro a metro, preso por cordas, mãos, dentes cerrados e soluções inventadas. O sol se deslocava acima como olho indiferente. O vento batia contra o paredão em rajadas que pareciam tentar arrancar nomes da boca de quem descia. Abaixo, o pântano permanecia distante demais para ser chão e perto demais para ser abstração.

Então a cadeira de Garra começou a ceder.

Foi um som pequeno. Fibra estalando. Resina reclamando. Um aviso tão discreto que só Adnaan o sentiu inteiro pelo elo: a súbita tensão do zhackal, o medo instintivo de queda, a fúria contra a própria vulnerabilidade.

— Garra!

Adnaan se moveu antes que a frase terminasse.

Saltou, sumiu numa sombra estreita da rocha, reapareceu mais abaixo, uma mão já buscando a corda que escapava. Por um instante, o mundo inteiro ficou reduzido a peso, vento e o olhar invisível do companheiro. Wener travou a linha de cima com um rugido. Veecent agarrou uma corda secundária. M'uamba lançou uma palavra curta que fez a fibra tensionar por um segundo a mais.

O bastante.

Adnaan prendeu a linha, puxou, travou, e Garra da Noite bateu contra a rocha em vez de despencar no vazio. As garras rasparam pedra. O zhackal rosnou como se ameaçasse morder a própria escarpa.

— Aguente, irmão — disse Adnaan.

Garra aguentou.

Depois disso, ninguém fez piada por alguns minutos.

Até Veecent.

— Ainda acho que a cadeira precisava de braços.

Wener olhou para ele.

— Você quer ser o próximo teste?

— Retiro a crítica.

O paredão guardava outros problemas.

Um vão de quarenta metros interrompia a rota como uma boca aberta. O caminho continuava do outro lado, visível, provocador, inalcançável por escalada comum. A queda entre as duas faces desaparecia em névoa. Nenhum erro ali seria pequeno.

Adnaan mediu distância, sombra, pedra.

— Eu alcanço.

Wener olhou para o vão.

— E nós?

Adnaan não respondeu de imediato. Correu, saltou, desapareceu no corte escuro de uma saliência e surgiu do outro lado com um impacto seco, joelhos dobrados, uma mão na rocha. Por um momento ficou apenas respirando. Depois prendeu a corda.

Wener estudou o ângulo.

— Tirolesa.

M'uamba piscou.

— Você pretende transformar uma queda fatal em uma queda guiada.

— Sim.

— Tecnicamente melhor.

Veecent passou a mão pelo rosto.

— Eu odeio quando isso é o bastante.

Mas foi.

Com cordas de resina kreen, força de Wener, pontos de ancoragem escolhidos por Adnaan, ajustes de M'uamba e uma quantidade saudável de desprezo athasiano pela prudência, o grupo cruzou. Um por um, deslizaram sobre o vazio, carregando armas, bolsas, artefatos, cansaço e o conhecimento íntimo de que nada abaixo deles perdoaria a queda.

Quando chegaram do outro lado, a rota mudou.

As varandas começaram.

Não eram sacadas como as de cidades humanas. Eram plataformas misturadas à própria escarpa, rocha e coral fossilizado fundidos em formas que pareciam naturais até os olhos perceberem o padrão. Algumas estavam quebradas. Outras resistiam com uma elegância antiga, feitas para pés pequenos, asas, cordas ou criaturas que conheciam melhor o vento do que o chão.

Kibb ficou silencioso no anel.

Wener percebeu.

— Ele conhece isso.

— Lembra? — perguntou Adnaan.

Wener ouviu por alguns instantes.

— Não exatamente. Mas dói como se lembrasse.

A névoa do pântano subia agora em camadas grossas. A metade superior do mundo desapareceu primeiro. Depois a savana distante. Depois o próprio topo das escarpas. A visibilidade encolheu para poucas dezenas de metros, e cada som começou a voltar diferente: corda raspando pedra, respiração, garra, passo, gota de umidade condensada caindo em alguma plataforma abaixo.

Mir-Sath deveria estar perto.

Ou o que restava dela.

A frase ninguém disse.

Foi Garra da Noite quem percebeu primeiro.

O zhackal parou, corpo baixo, pelos eriçados. Pelo elo, Adnaan sentiu cheiro de quitina, veneno, pedra úmida, muitas patas. Não era o cheiro dos kreen. Não era império. Era predador de fenda, coisa que vivia onde cair era comum e sobreviver significava agarrar-se a rocha antes que a presa entendesse que havia chão errado.

Adnaan levantou a mão.

Todos pararam.

Da névoa à frente veio o primeiro arranhar.

Depois outro.

E outro.

Som de pernas rígidas tocando coral fossilizado. Som de carapaças raspando rocha. Som de muitos corpos se movendo onde o caminho era estreito demais para tantos.

M'uamba ergueu o cajado.

Wener firmou o martelo.

Veecent puxou Mantaster com um sorriso pequeno e cansado.

— Então Mir-Sath nos manda recepção.

Adnaan viu as primeiras formas surgirem na bruma: escorpiões negros do tamanho de cães de grande porte, baixos, brilhantes de umidade, pinças erguidas e caudas arqueadas. Mastyrials. Um, dois, mais. A névoa fazia cada silhueta parecer maior até que chegasse perto o bastante para ser pior.

Garra da Noite rosnou.

Lá embaixo, em algum lugar além da névoa e da pedra, o pântano respirava.

E entre o grupo e a cidade perdida, as escarpas mostraram seus dentes.

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A emboscada dos mastyrials


Notas de Rodapé:

  • Tchak-tik e os kreen libertos são nativos do cerrado próximo às escarpas; eles conhecem a grande fenda como consequência de tremores recentes, mas não conhecem Mir-Sath.
  • A Pedra que Bebe o Vento preserva marcas Rhul-thaun indicando uma rota segura e um assentamento próximo, mas o terremoto danificou parte da orientação original.
  • O zik-trin prisioneiro demonstrou capacidade de sondagem mental e escapou por teleporte mesmo vendado e amarrado.
  • A cidade âmbar-esverdeada vista na savana abaixo não foi identificada como Mir-Sath.
  • A descida para Mir-Sath permanece em andamento; a sessão termina com a aproximação de mastyrials negros nas varandas de rocha e coral fossilizado.