Onde Mir-Sath Caiu
Dia 101 — As varandas Rhul-thaun e o pântano abaixo das escarpas
A névoa subia do pântano como hálito de um cadáver antigo.
Ela vinha em camadas grossas, úmidas, quase ofensivas para corpos acostumados ao pó. Abaixo, a três quilômetros de queda, a base das escarpas desaparecia em verde escuro e vapor. Acima, o topo já não era mais visível. O grupo estava preso no meio do mundo, entre o céu seco de Athas e a lama escondida onde os Rhul-thaun um dia tinham aprendido a viver com vento sob os pés.
As varandas antigas se agarravam ao paredão como costelas expostas. Rocha, coral fossilizado e uma arquitetura que ainda tentava parecer natural mesmo depois de eras. Havia beleza ali, mas uma beleza quebrada: bordas partidas, encaixes deslocados pelo terremoto, passagens que terminavam em nada, saliências onde a pedra lembrava o mar melhor do que lembrava os vivos.
Kibb falava baixo no anel de Wener.
O meio-gigante escutava com o rosto fechado, como se cada palavra viesse com um peso novo. O antigo halfling dizia que Mir-Sath estava perto. Muito perto. A rota marcada pela Pedra que Bebe o Vento não mentia; mesmo danificada, ainda apontava o caminho. Mais algumas travessias, mais algumas varandas, mais alguns metros roubados da morte.
Então Garra da Noite rosnou.
Adnaan sentiu antes de ouvir. Pelo elo, veio o cheiro: quitina molhada, veneno, fome simples. Não era o odor seco dos kreen, nem a disciplina resinosa do Império. Era coisa de pedra úmida e fenda vertical. Predadores que não precisavam correr porque a própria escarpa fazia metade da caça por eles.
— Parados — disse Adnaan.
A palavra saiu baixa, mas ninguém ignorou.
Da névoa, primeiro veio o arranhar. Pernas rígidas tocando coral fossilizado. Garras pequenas raspando rocha. Depois, as formas negras surgiram uma a uma: escorpiões do tamanho de cães de grande porte, carapaças brilhando com umidade, pinças erguidas, ferrões curvados sobre o dorso como ganchos de obsidiana.
Mastyrials.
Não vieram em linha. Vieram de cima, de baixo, dos lados, descendo pela parede como gotas de veneno que sabiam onde cair. Alguns se prenderam às varandas à frente de Veecent e Wener. Outros avançaram pelo trecho isolado onde M'uamba ainda estava separado do grupo pelo vão atravessado pouco antes. Mais carapaças se moviam na névoa, muitas demais para que a primeira contagem fosse conforto.
Veecent girou Mantaster no pulso.
— Escorpiões de penhasco. Claro. Porque uma queda de três quilômetros precisava de dentes.
Wener firmou os pés na pedra estreita.
— Fiquem juntos.
— A escarpa discorda — respondeu M'uamba, seco.
O feiticeiro estava do outro lado do vão, separado dos companheiros pela distância e pela tirolesa que ainda não estava pronta para trazê-lo em segurança. Seu manto roxo se movia na névoa como uma mancha de noite arcana. Diante dele, um mastyrial avançava baixo, ferrão tremendo. Outro vinha logo atrás.
M'uamba levantou o cajado.
Havia algo diferente nele desde que atravessara o limiar de Legate. A magia já era perigosa antes, mas agora parecia obedecer a uma raiva mais profunda, como se Athas não fosse apenas consumido por sua vontade, mas obrigado a reconhecer o contorno dela. O ar ao redor do feiticeiro se comprimiu. A névoa recuou em espirais. A ponta do cajado brilhou com uma luz que não era fogo, raio nem puro som, mas a violência organizada de todos eles.
— Saia do caminho da minha pesquisa — disse ele.
O disparo feiticeiro atravessou o mastyrial mais próximo.
Não o perfurou apenas. Rasgou. A carapaça negra se abriu por dentro em clarões de energia mística; patas endureceram, pinças se contraíram, e o corpo tombou contra a varanda em pedaços fumegantes. O cheiro de quitina queimada misturou-se à umidade podre do pântano.
Por um instante, a névoa ficou violeta.
O segundo mastyrial saltou pelo clarão.
As pinças erraram M'uamba por pouco, fechando-se no ar com estalo seco. A mordida também falhou, desviada por um passo curto do elfo. Mas o ferrão veio de cima, rápido demais. A ponta penetrou carne e tecido. O veneno entrou como gelo sujo, espalhando torpor pelos membros.
M'uamba cambaleou.
Do outro lado do vão, Adnaan viu.
O arco já estava em sua mão.
A flecha elétrica cortou a névoa com um chiado azul. Acertou o mastyrial que ameaçava M'uamba, abrindo rachaduras luminosas na carapaça. A criatura recuou, viva por pouco.
— Garra — disse Adnaan, sem tirar os olhos do alvo. — A tirolesa. Agora.
Garra da Noite disparou.
O zhackal se moveu pela varanda como sombra com dentes, pegando a corda de resina e arrastando-a para o ponto certo. O elo entre ele e Adnaan vibrou com urgência, não medo. Havia trabalho a fazer. M'uamba precisava atravessar. A matilha precisava fechar a distância antes que os escorpiões transformassem o campo em uma série de mortes separadas.
Veecent não esperou.
Soltou um urro estranho, perturbador, quase alegre demais para a situação, e avançou contra o mastyrial mais próximo. Mantaster desceu em arco brutal, esmagando carapaça, arrancando uma chuva de fragmentos negros e fluido viscoso. O escorpião dobrou-se sob o golpe, quase partido ao meio.
— Isso — disse Veecent — foi por aparecer sem convite.
A resposta veio em ferrão.
Um mastyrial investiu contra ele. As pinças passaram abertas ao lado de seu corpo; a mordida estalou perto do rosto, tão próxima que o vento da mandíbula tocou sua pele. Veecent inclinou-se no último instante. O ferrão acertou em seguida, enterrando-se com força na carne. O veneno tentou tomar o corpo do guerreiro, mas encontrou uma teimosia antiga, treinada por maldições piores.
Veecent cerrou os dentes.
— Fraco.
Outro ferrão veio depois, de outra criatura. Também encontrou sangue. Também não encontrou rendição.
Wener atravessou a névoa até ele como uma torre caminhando dentro de um sonho ruim. O martelo crepitava roxo na mão. Antes do golpe, veio a cura: um pulso biopsiônico que fechou parte das feridas de Veecent, expulsando calor venenoso, sustentando músculos que já acumulavam cortes demais.
— Fique de pé — disse o meio-gigante.
— Eu estava de pé.
— Então continue.
O martelo caiu.
A cabeça do mastyrial ferido por Veecent se partiu contra a pedra com um som úmido e seco ao mesmo tempo. O corpo se debateu por um segundo, patas arranhando a varanda, e depois ficou imóvel.
Mas a névoa ainda se movia.
Mais mastyrials desciam pela parede. Um veio na direção de Wener. Outro na direção de Adnaan. Outros se posicionavam acima, abaixo, atravessando superfícies que para o grupo eram parede e para eles eram estrada. A escarpa inteira parecia criar ferrões.
M'uamba, do outro lado, ainda respirava com dificuldade.
Seu familiar e o diabo da garrafa surgiram ao comando dele, pequenas presenças de serviço, malícia e utilidade. Atacaram o mastyrial ferido, distraindo-o o bastante para que o feiticeiro erguesse de novo o cajado. Dessa vez a magia não queimou de fora para dentro. Torceu.
O corpo do escorpião virou-se ao avesso em um espasmo impossível.
Carapaça abriu como casca podre. Fluido, órgãos e luz arcana se misturaram por um instante horrível antes que a criatura despencasse morta contra a varanda.
M'uamba limpou a boca com as costas da mão.
— Agora sim — murmurou. — Espaço para trabalhar.
Do outro lado, Veecent encontrou outro alvo.
O golpe que deu em seguida não pareceu golpe, mas sentença. Mantaster veio de cima embaixo com o peso acumulado de veneno resistido, mordidas evitadas e irritação pessoal. A lâmina do machado acertou o mastyrial com precisão perfeita, rachando a carapaça do dorso e abrindo caminho para um segundo corte que o fez estremecer inteiro.
Adnaan sumiu.
Uma sombra na rocha o engoliu; outra, perto de M'uamba, o devolveu. O caçador surgiu já com o arco tensionado. A flecha atravessou a névoa e explodiu o mastyrial ferido por Veecent em um clarão elétrico. No mesmo movimento, Adnaan puxou a energia vital da morte recém-aberta, não como magia acadêmica, mas como instinto de caçada elevado a mito. A vitalidade roubada correu pelo ar, encontrou Veecent e fechou parte de suas feridas.
— Respira — disse Adnaan.
Veecent olhou para o corpo destruído do escorpião.
— Com prazer, desde que eles parem de furar meus pulmões.
Garra da Noite atacou com a mente.
O Ego Whip atingiu outro mastyrial, uma chicotada invisível de terror e dúvida. A criatura não tinha rosto humano para expressar hesitação, mas suas patas falharam por um instante, o corpo baixo recuando como se o próprio instinto tivesse tropeçado.
Então os escorpiões fecharam.
Vieram contra Veecent em série. Pinças raspando armadura, mordidas estalando na névoa, ferrões buscando juntas, pescoço, costelas. Um deles acertou. Outro quase. O veneno voltou a entrar, e dessa vez trouxe peso aos membros. Ainda assim, o guerreiro amaldiçoado não caiu.
Wener recebeu os seus.
Um mastyrial acertou seu ferrão no meio-gigante, e o veneno espalhou-se como areia molhada dentro dos músculos. Wener sentiu o corpo atrasar. Outro escorpião o atingiu em seguida, aprofundando o torpor. Para qualquer outro, aquilo seria convite para cair. Para Wener, foi apenas mais uma coisa a ser carregada.
— Veneno — disse ele, a voz baixa.
— Percebi — respondeu Veecent.
— Não era aviso. Era irritação.
O meio-gigante ergueu o martelo e acertou um dos mastyrials com força suficiente para deslocar a criatura na pedra.
Enquanto isso, a tirolesa ficou pronta.
Garra da Noite tensionou a corda como pôde, e M'uamba se lançou.
Por um instante, o feiticeiro foi apenas silhueta na névoa, manto puxado pelo vento, corpo deslizando sobre o vazio enquanto o pântano respirava lá embaixo. A corda vibrou. A escarpa tentou arrancá-lo. Ele chegou do outro lado perto de Garra da Noite, pousando com menos elegância do que gostaria, mas com o cajado ainda firme.
— Excelente — disse M'uamba, endireitando-se. — Agora estão todos em uma posição perfeitamente inadequada para sobreviver.
Ele ergueu a mão.
O fogo nasceu.
Não foi um incêndio grande. Não precisava ser. Era uma esfera concentrada de calor, luz e desprezo, lançada no meio dos mastyrials reunidos. A explosão bateu contra rocha e coral fossilizado, engolindo carapaças negras, ferrões, pinças e névoa. Por um momento, o mundo vertical virou um sol preso ao paredão.
Dois escorpiões morreram no clarão, corpos se encolhendo, patas carbonizadas retorcendo-se contra a pedra. Outros saíram cambaleando, rachados, fumegantes, enfraquecidos.
Veecent viu a abertura.
Moveu-se para o espaço de Wener com um passo largo, empurrando a linha de frente com a naturalidade de quem não tinha intenção de pedir licença de verdade.
— Com licença, baixinho!
O meio-gigante virou o rosto devagar.
— Baixinho?
Veecent já girava.
Mantaster descreveu um círculo brutal ao redor dele. A lâmina pegou o primeiro mastyrial de lado e arrancou-lhe a vida. Continuou o arco, acertou o segundo, partindo a carapaça em duas linhas fundas. Terminou no terceiro, ferindo-o tão gravemente que a criatura quase perdeu o apoio na parede. O golpe não foi dança; foi roda de moer carne e quitina.
Adnaan mirou o mastyrial que avançava contra Garra.
O zhackal estava perto demais do ferrão. Pelo elo, veio a tensão do companheiro: cálculo de salto, cheiro de veneno, vontade de morder antes de ser mordido. Adnaan não permitiu que a troca acontecesse.
A flecha saiu como um ponto de trovão.
Entrou no mastyrial com precisão letal, atravessando o ponto onde carapaça e mandíbula se encontravam. Garra da Noite completou com as garras, rasgando o corpo enquanto Adnaan puxava da morte da criatura uma nova corrente de vitalidade. Dessa vez a energia correu para M'uamba, fechando parte do ferimento deixado pelo ferrão, devolvendo ao feiticeiro um pouco da cor que o veneno tentara roubar.
Depois, Adnaan desapareceu de novo nas sombras e reapareceu junto de M'uamba e Garra.
Matilha reunida.
Não por muito tempo.
Um mastyrial agarrou Veecent.
As pinças se fecharam com força em torno do corpo do guerreiro, prendendo braços e costelas. O impacto arrancou ar de seus pulmões. O ferrão se ergueu acima dele, pronto para descer outra vez, enquanto mandíbulas estalavam perto demais do rosto amaldiçoado.
Veecent sorriu com os dentes manchados de sangue.
— Você não vai gostar de me segurar.
Wener respondeu antes do ferrão.
A energia de cura se expandiu a partir dele em uma onda ampla, atravessando corpos aliados como água quente em pedra rachada. Cortes fecharam parcialmente. O veneno perdeu força por um instante. Músculos voltaram a obedecer. A matilha inteira respirou melhor.
Então o martelo do meio-gigante caiu sobre o mastyrial ferido por Veecent, esmagando-o contra a varanda.
Ainda restavam dois.
M'uamba escolheu um.
O poder de Legate veio de novo, mas agora não como disparo. Como negação. O feiticeiro avançou um passo, os olhos brilhando, o cajado envolto por energia concentrada. Quando golpeou, o impacto não parecia o de madeira contra quitina. Parecia o de uma lei arcana sendo aplicada com violência física.
O mastyrial foi lançado para longe da parede.
Por um instante, suas patas tentaram encontrar rocha onde já não havia rocha. As pinças abriram-se no vazio. O ferrão se curvou sem alvo. Depois a criatura sumiu na névoa, caindo rumo ao pântano invisível abaixo.
Veecent atacou o último com uma machadada brutal, abrindo carapaça e expondo carne escura.
Adnaan terminou.
O caçador ficou imóvel por meio segundo, o bastante para a névoa se fechar em torno dele e o mundo estreitar até um único ponto: a abertura entre as mandíbulas do mastyrial. A flecha atravessou esse espaço exato. Entrou pela boca, saiu em luz elétrica por trás da cabeça, e o corpo desabou sem sequer terminar o movimento de ataque.
O silêncio voltou aos poucos.
Primeiro, o fim dos estalos de carapaça. Depois, o som das patas parando de raspar. Depois, o vento. Depois, a própria respiração do grupo, pesada, venenosa, viva.
Veecent empurrou para longe uma pinça morta.
— Da próxima vez que Kibb disser "rota segura", eu quero a definição dele por escrito.
Wener apoiou o martelo na pedra e começou a curar.
Não houve espetáculo. Só trabalho. Mãos sobre feridas, energia psíquica, respirações comandadas, veneno empurrado para longe do coração. M'uamba aceitou a cura sem comentário, o que para ele talvez fosse gratidão. Adnaan verificou Garra da Noite primeiro, depois os outros. Garra encostou o focinho em sua mão por um instante curto, quase imperceptível, antes de voltar a farejar os cadáveres.
— Partes valiosas — disse Adnaan.
Veecent olhou para os escorpiões mortos.
— Finalmente uma frase bonita.
Juntos, extraíram o que prestava: veneno das caudas, mandíbulas rígidas, peças de carapaça e quitina capazes de interessar artesãos, alquimistas ou gente com pouca prudência e muito dinheiro. O trabalho era nojento, escorregadio, necessário. Em Athas, até monstros que quase matavam você podiam pagar a próxima refeição.
Depois, seguiram.
Kibb dizia que Mir-Sath estava próxima.
A névoa começou a diminuir quando atravessaram a última passagem. Não porque o pântano cessasse seu vapor, mas porque o sol poente encontrou um ângulo entre as escarpas e rasgou a bruma em faixas douradas. A luz bateu na parede de rocha, escorreu sobre coral fossilizado, incendiou as bordas quebradas das varandas e revelou o caminho adiante.
Wener parou.
Adnaan parou logo depois.
M'uamba não disse nada.
Onde Mir-Sath deveria estar, havia pedra nua.
Não ruína habitável. Não cidade escondida. Não torres verticais ou plataformas de vento. Só uma cicatriz brutal no paredão, uma ausência lisa demais, grande demais, recente demais para ser confundida com erosão. O terremoto que abrira a grande fenda no cerrado também arrancara Mir-Sath da escarpa.
A cidade caíra.
Por alguns segundos, até Pahn-Tu ficou em silêncio.
Lá embaixo, na base das escarpas, a luz do sol poente atravessava a névoa e tocava o pântano. Entre água escura, lama e vegetação, havia fragmentos de coral multicolorido espalhados como ossos de uma criatura imensa. Arcos partidos. Plataformas despedaçadas. Formas que um dia talvez tivessem sido casas, passarelas, ninhos de planadores, jardins verticais. Agora eram destroços no fundo úmido do mundo.
Wener levou a mão ao anel.
Kibb não gritava.
Isso era pior.
A presença no anel parecia ter encolhido, como uma chama protegida por mãos trêmulas. O antigo halfling que falara de Mir-Sath com ansiedade, esperança e medo agora encarava, através dos olhos de Wener, o lugar onde sua cidade natal deveria estar. O silêncio dele não era ausência. Era impacto.
— Kibb — disse Wener, baixo.
Nada.
— Kibb.
A resposta veio como vento quebrado.
"Era aqui."
Só isso.
Era aqui.
Veecent baixou Mantaster.
Adnaan olhou para os destroços no pântano e pensou na própria tribo, ainda distante, ainda esperando uma terra que não soubesse devorá-los. Pensou em lugares que sobreviviam apenas enquanto alguém pudesse voltar. Pensou no que significava chegar tarde demais.
M'uamba, por sua vez, olhava para os fragmentos com o rosto de quem via perda e possibilidade ao mesmo tempo. Não era crueldade. Era a deformação inevitável de um estudioso diante de ruína rara: parte dele lamentava; outra parte media, classificava, imaginava o que poderia ter sobrevivido.
Pahn-Tu falou primeiro.
"Se o núcleo estrutural permaneceu intacto em parte, pode haver uma semente utilizável."
Wener virou-se devagar.
— Uma semente.
"Um núcleo biotécnico. Algo a partir do qual eu poderia iniciar um laboratório funcional. Talvez também elementos úteis para a restauração das fraquezas vitais de M'uamba e Tao'ka. E, se houver matriz neural suficiente, para cultivar um corpo adequado ao Andarilho dos Ventos."
O anel ficou frio na mão de Wener.
— A cidade dele acabou de cair.
"Sim."
— E você está pensando em peças.
Pahn-Tu encarou o meio-gigante. Os olhos azuis não piscaram.
"Estou pensando no que ainda pode ser salvo."
— Você está pensando no que pode usar.
A frase ficou no ar como martelo antes do impacto.
Pahn-Tu não recuou. Talvez não soubesse. Talvez tivesse esquecido como.
"Em um mundo morto, a diferença entre uso e salvação frequentemente é sentimental."
Wener deu um passo na direção dele.
Veecent se moveu meio passo também, não para impedir, mas para estar perto caso fosse preciso decidir se impedir era uma boa ideia.
Adnaan falou antes que a raiva virasse ação.
— Wener.
O meio-gigante continuou olhando para Pahn-Tu.
— Ele perdeu a casa.
M'uamba respondeu, a voz mais baixa que de costume.
— E talvez só reste dela aquilo que está lá embaixo.
Wener fechou os dedos ao redor do anel. Não apertou o bastante para ferir. Só o bastante para lembrar que carregava alguém.
— Então falem como se isso importasse.
O anoitecer terminou de cair.
M'uamba ergueu a proteção mágica para o acampamento em uma varanda larga o suficiente para que a palavra "seguro" não soasse completamente insultuosa. A bolha de abrigo se fechou contra a névoa, o vento e as criaturas da escarpa. Do lado de fora, o pântano respirava sobre os ossos de Mir-Sath. Do lado de dentro, o grupo discutia o próximo movimento.
Subir de volta ao planalto significava continuar a viagem rumo à capital da civilização de Kibb, uma plataforma nas escarpas que, segundo ele, nenhum terremoto comum seria capaz de destruir. Mas isso custaria uma ou duas semanas a mais, talvez sob pressão imperial, talvez com o zik-trin fugitivo levando notícias adiante.
Descer ao pântano significava encarar os destroços.
Significava buscar entre coral quebrado e lama os segredos Rhul-thaun que Pahn-Tu queria. Talvez um núcleo biotécnico. Talvez componentes para curar a debilidade vital de M'uamba e Tao'ka. Talvez a primeira peça real para dar a Kibb um corpo novo. Talvez apenas restos, veneno, predadores e a confirmação de que a cidade morrera inteira.
Veecent foi o primeiro a resumir.
— Então as opções são: subir por semanas atrás de gente viva, ou descer agora para mexer no cadáver de uma cidade.
— Não diga assim — disse Wener.
Veecent olhou para o anel, depois para o pântano.
— Certo. Descer para ver se a cidade deixou coração.
M'uamba observou a névoa escura além da proteção.
— Se deixou, não seremos os únicos interessados por muito tempo.
Adnaan ficou perto da borda, Garra da Noite ao lado, os dois olhando para baixo.
O caçador não gostava de pântanos. Não gostava de terreno que escondia cheiro sob água, som sob lama, morte sob verde. Mas ali havia respostas. E havia uma promessa feita de modo indireto desde que Kibb começara a falar dos Rhul-thaun: chegar até seu povo, devolver algo ao que restou dele, não deixar que a memória fosse apenas peso no dedo de Wener.
— Descemos — disse Adnaan.
Wener olhou para ele.
— Tem certeza?
— Não. Mas é o rastro que temos.
Garra da Noite soltou um rosnado baixo, concordando com a única lógica que importava à matilha: a presa, a resposta, a perda, todas deixavam marcas. E marcas existiam para serem seguidas.
Kibb falou no anel, quase inaudível.
"Era aqui."
Desta vez, Wener respondeu em voz alta, para todos ouvirem.
— Então começamos por aqui.
Lá embaixo, os fragmentos multicoloridos de Mir-Sath brilhavam no último resto de luz como corais de um oceano morto.
O pântano guardava os segredos dos Rhul-thaun.
E ao amanhecer, o grupo iria descer para arrancá-los da lama.
Notas de Rodapé:
- Os mastyrials negros atacaram durante a descida pelas varandas Rhul-thaun, aproveitando a névoa e a verticalidade da escarpa.
- M'uamba demonstrou novos poderes de Legate em combate, destruindo mastyrials com força arcana direta e arremessando um deles para fora da parede.
- A cidade de Mir-Sath não está mais presa à escarpa: o terremoto que abriu a grande fenda também a derrubou, espalhando suas ruínas de coral multicolorido pelo pântano abaixo.
- Pahn-Tu acredita que um núcleo biotécnico ou "semente" de laboratório pode ter sobrevivido entre os destroços e talvez servir para curar M'uamba e Tao'ka ou cultivar um novo corpo para Kibb.
- O grupo decidiu descer ao pântano em busca dos segredos Rhul-thaun antes de seguir para a capital ainda intacta nas escarpas.