A Cidade que Ainda Bebia
Dia 102 — A descida final e as ruínas de Mir-Sath
Ao amanhecer, o pântano continuava respirando sobre os mortos.
A proteção de M'uamba dissolveu-se sob a primeira luz, e o ar úmido invadiu a varanda como uma criatura que passara a noite esperando do lado de fora. A névoa subia em ondas densas, cobria os fragmentos multicoloridos de Mir-Sath e apagava a base das escarpas. Lá embaixo, em algum lugar sob aquele lençol verde-acinzentado, repousava o que restava da cidade de Kibb.
Wener tocou o anel.
A presença do Andarilho dos Ventos estava desperta, mas quieta. Desde a visão da cicatriz nua onde Mir-Sath estivera, suas palavras vinham raras, frágeis como cordas gastas pelo tempo. Ainda assim, quando o meio-gigante olhou para o pântano, sentiu no metal uma urgência que não era sua.
— Vamos descer — disse Wener.
"E se não houver mais nada?" perguntou Kibb.
A voz não veio para todos. Passou primeiro pelo anel e encontrou Wener por dentro, pequena demais para o tamanho da perda que carregava.
O meio-gigante fechou a mão ao redor do metal.
— Então vamos ver com nossos próprios olhos. Mas, se houver alguma coisa, nós encontramos.
Pahn-Tu voltou os olhos azuis para a névoa abaixo.
"Esperança não sustenta uma estrutura biotécnica."
— Não — respondeu Adnaan, examinando a parede. — Mas indica onde começar a procurar.
Então voltou toda a atenção para a descida.
Para os outros, a névoa escondia a escarpa e transformava cada saliência numa dúvida. Para ele, o mundo não terminava onde a visão falhava. A rocha continuava ao redor de seu corpo em distâncias precisas; fissuras, plataformas e dentes de coral fossilizado desenhavam-se em sua consciência como formas tocadas por mãos invisíveis. O caçador escolheu uma sombra muitos metros abaixo e desapareceu.
O escuro o engoliu sem ruído.
Outra sombra o devolveu de joelhos sobre uma varanda partida, já com a corda nas mãos. Adnaan prendeu a primeira ancoragem, testou a pedra com o peso do corpo e fez sinal para os demais. Depois saltou de novo, atravessando a parede aos pedaços: um homem surgindo onde a luz não chegava, fixando uma rota que só existia porque ele a construía antes dos outros.
Garra da Noite apareceu na borda acima, o corpo escuro recortado contra a névoa. Não precisava de uma ordem para entender o plano. Pelo elo, Adnaan sentiu a pergunta do companheiro: pedra firme, caminho estreito, perigo abaixo.
— Firme o bastante — respondeu Adnaan, baixo. — Venha quando puder, irmão. Eu encontro o caminho para nós dois.
Do zhackal veio uma certeza quente e feroz. Onde Adnaan abrisse passagem, Garra da Noite o seguiria. Onde Garra encontrasse perigo, Adnaan estaria com ele.
Veecent foi um dos primeiros a seguir.
Mantaster estava preso às costas, mas a armadura pesada puxava seu corpo para longe do paredão a cada passo. A corda rangia nas mãos. Sob os pés, três quilômetros de queda já haviam se reduzido, mas isso não tornava o vazio mais gentil. O guerreiro amaldiçoado avançou de lado, procurando apoios com as botas enquanto o rosto liso e infantil permanecia contraído numa concentração perturbadoramente adulta.
— Se essa cidade tiver escadas — resmungou —, eu vou começar a respeitar os antigos.
— Respeite a corda primeiro — disse Wener. — E pode confiar: eu não vou deixá-la soltar.
Veecent olhou para o vazio sob as botas.
— Então ela e você já conquistaram mais respeito do que muitos antigos.
M'uamba veio depois.
A descida cobrava dele mais do que deixava transparecer. Seus dedos tremiam ao redor da corda. Os braços, ainda enfraquecidos pelo que a pirâmide lhe roubara, ardiam cedo demais; a respiração escapava em golpes curtos, e o cajado preso ao corpo batia contra a pedra. Ele recusou ajuda na primeira vez. Na segunda, não houve oferta: Wener simplesmente segurou a corda com a força de uma torre e não permitiu que ela oscilasse.
— Eu consigo — disse o feiticeiro.
— Eu sei — respondeu Wener. — Só não precisa provar sozinho. Segure; eu firmo.
M'uamba apertou a corda e retomou o movimento.
— Não solte.
— Não vou.
Pahn-Tu observou o tremor nos braços de M'uamba sem qualquer delicadeza.
"A lesão vital piora sob esforço prolongado. Se insistir em tratá-la como ofensa ao orgulho, chegará ao laboratório como material de estudo."
M'uamba ergueu os olhos para ele.
— E se você insistir em me tratar como material, chegará sem feiticeiro.
De uma varanda abaixo, a voz de Adnaan subiu pela névoa.
— Guardem o fôlego. Preciso de todos inteiros lá embaixo.
Pahn-Tu manteve os olhos inteiramente azuis sobre o grupo. Sua armadura de coral vivo mudava de cor sob a luz fraca, ondulando em matizes de um oceano que Athas já não possuía. Não ofereceu encorajamento. Para ele, aqueles movimentos desajeitados talvez fossem apenas mais uma prova de quanto o mundo decaíra.
Garra da Noite desceu junto de Adnaan sempre que a pedra permitia. Onde não permitia, Wener e Veecent improvisavam uma passagem para o grande zhackal. Cada vez que os dois irmãos de matilha se reencontravam numa varanda, bastava o toque breve da mão de Adnaan na juba escura para reafirmar o pacto entre eles: nenhum seguiria adiante sem saber onde o outro estava. Pelo elo, o caçador recebia cheiros partidos pela umidade: coral molhado, limo, resina antiga, pequenos animais escondidos nas fendas. E, cada vez mais forte, o odor escuro do pântano.
A descida final para Mir-Sath
As últimas centenas de metros foram menos verticais e mais traiçoeiras.
As varandas davam lugar a rampas naturais, placas inclinadas de coral e grandes porções da cidade que haviam se prendido ao paredão durante a queda. Já não era necessário atravessar tantos vãos, mas a névoa fechou-se sobre o grupo até transformar cada companheiro numa silhueta incompleta.
Veecent sumiu primeiro.
— Ainda estou aqui — veio sua voz, alguns passos adiante.
— Isso não ajuda — respondeu M'uamba de algum lugar à esquerda.
— Ajuda a mim.
Adnaan parou e procurou o brilho metálico da armadura de Wener na névoa.
— Wener, a lanterna. Erga-a acima da cabeça.
O meio-gigante entendeu a ideia. Retirou a lanterna e a levantou com o braço estendido. A luz abriu um círculo pálido no vapor, insuficiente para revelar o caminho, mas forte o bastante para servir de referência.
— Mantenha-a alta — disse Adnaan. — Eu encontro a rota e volto para a luz.
— E nós? — perguntou Veecent.
— Vocês seguem Wener.
Veecent fitou o vulto enorme iluminado no centro da bruma.
— Finalmente um plano que não exige enxergar os pés.
— Exige que os coloque onde eu colocar os meus — disse Wener.
M'uamba, ofegante atrás deles, apoiou-se no cajado.
— Se Veecent colocar os pés onde você coloca os seus, perde as duas pernas numa única pegada.
— Então siga a luz e evite as pegadas — concluiu Adnaan, antes de desaparecer outra vez na névoa.
Antes de partir, encostou dois dedos na testa de Garra da Noite.
— Fique com eles. Traga todos até a luz.
O zhackal respondeu pelo elo com a tranquilidade de quem aceitava uma função dentro da caça. Proteger o restante da matilha também era caçar.
O meio-gigante tornou-se um farol ambulante. Adnaan avançava pela bruma, escolhia a passagem e retornava até que o brilho surgisse novamente em sua consciência. Garra da Noite permanecia perto dos que tinham mais dificuldade, o focinho baixo, a juba azul-negra encharcada. Quando M'uamba ou Veecent desviavam, um rosnado curto os empurrava de volta à direção correta.
Mesmo assim, a descida consumiu o dia.
Quando as botas de Wener finalmente afundaram na lama da base das escarpas, o sol já descia entre as nuvens. A luz vermelha atravessava a névoa em colunas estreitas, tocando água parada, árvores retorcidas e blocos de coral multicolorido grandes como casas.
Mir-Sath jazia ao redor deles.
Arcos partidos emergiam do pântano como costelas. Plataformas que um dia desafiaram a parede agora estavam inclinadas sob raízes e limo. Passarelas afundavam na água escura, levando a portas que não davam mais para lugar algum. Havia coral azul, vermelho, dourado e violeta sob a sujeira — cores de um oceano morto cobertas pela vegetação de um mundo que aprendera a apodrecer sem ele.
As ruínas de Mir-Sath no pântano abaixo das escarpas
Pahn-Tu respirou fundo.
Sua expressão se fechou imediatamente.
"Este lugar fede ao Arauto."
A voz telepática entrou na mente do grupo como água fria.
M'uamba apoiou a ponta do cajado na lama e observou as pequenas ondulações que se afastavam dela. O ar tinha peso mágico. Não o fulgor ordenado das obras Rhulisti, mas uma distorção mais bruta, infiltrada na água, no calor e no crescimento das plantas.
— Ele tem razão — disse o feiticeiro. — Isto não é um pântano inteiramente natural.
Veecent olhou para uma massa de folhas largas que se fechou devagar em torno do osso de um animal.
— Que parte entregou? A água que parece querer nos engolir ou as plantas com hábitos alimentares?
Pahn-Tu ignorou-o.
"A semente, se sobreviveu, não estará morta. Procurem uma estrutura que ainda esteja se alimentando. Água desviada. Nutrientes absorvidos. Crescimento onde deveria haver apenas ruína."
Wener pousou a mão sobre o anel.
— Quando encontrarmos essa semente, você vai tirá-la daqui?
"Se for necessário."
O metal esfriou no dedo do meio-gigante.
"Não deixe que ele arranque o coração da cidade," pediu Kibb.
M'uamba observou Pahn-Tu antes de responder.
— Primeiro descobrimos se é um coração, um cadáver ou alguma coisa entre os dois. Depois decidimos o que pode ser movido.
"Vocês decidirão com base em ignorância," disse Pahn-Tu.
— Então você explica — retrucou Wener. — Antes de tocar em qualquer coisa.
Adnaan olhou para as ruínas, depois para a água imóvel entre elas.
— Primeiro encontramos o rastro. A discussão vem quando tivermos algo diante de nós.
Adnaan assentiu e seguiu à frente.
O pântano tentou esconder o caminho sob mil cheiros sobrepostos. Lama revolvida. Vegetação fermentando. Água mineral. Flores de odor doce demais. Animais que espreitavam sem mostrar o corpo. O caçador separou cada camada, avançando por cima de fragmentos inclinados de Mir-Sath enquanto Garra da Noite se tornava invisível ao seu lado.
Wener vinha atrás, uma presença pesada demais para o pântano disfarçar. M'uamba e Pahn-Tu seguiam no centro. Veecent fechava a marcha, Mantaster agora nas mãos.
Foi Kibb quem rompeu o silêncio.
"Não há mortos."
Wener baixou os olhos para o anel.
— O quê?
A voz ficou um pouco mais firme.
"Uma cidade caiu. Deveria haver mortos."
O meio-gigante examinou as ruínas outra vez. Havia destroços suficientes para sepultar milhares, mas nenhum osso preso nas plataformas, nenhum corpo preservado pela lama, nenhuma concentração de restos onde uma multidão tivesse sido surpreendida.
— Eles saíram — disse Wener.
Por um instante, o metal do anel pareceu aquecer.
"Talvez."
— Nenhum corpo é melhor do que muitos corpos — disse Veecent. — Não é esperança. É contagem.
M'uamba percorreu com os olhos os arcos inclinados e as passarelas afundadas.
— A ausência é um sinal — disse M'uamba. — Não prova que houve evacuação, mas torna essa possibilidade mais forte do que qualquer conclusão sombria que possamos inventar agora.
"Mir-Sath possuía sistemas capazes de perceber falhas estruturais," disse Pahn-Tu. "Se parte da Arte ainda funcionava quando o terremoto começou, um alerta é plausível."
Kibb demorou a responder.
"Então eles podem ter chegado aos planadores."
— Podem — disse Wener. — Vamos procurar sinais dos vivos, não inventar os mortos.
Não era certeza. Em Athas, porém, esperança raramente vinha inteira.
Adnaan se agachou alguns metros adiante.
Na margem de uma poça funda, a lama guardava pegadas. Eram humanoides, mas largas, marcadas por seis dedos compridos. Mais de uma criatura passara por ali, movendo-se entre as ruínas com segurança suficiente para não esconder o rastro.
O caçador tocou uma das marcas.
— Recentes.
M'uamba aproximou-se e reconheceu o formato. A lembrança veio acompanhada do cheiro da selva que cercava a Pirâmide Invertida, do brilho de cajados de obsidiana e da mata morrendo em cinzas sob uma feitiçaria exercida como instinto.
— Os mesmos pés — disse Adnaan. — Como os que nos atacaram antes da pirâmide.
Pahn-Tu fitou o rastro com desprezo.
"Degeneração com acesso acidental a poder que não compreende."
— Eles compreendiam o suficiente para quase nos matar — respondeu M'uamba.
"Isso não é compreensão. É fome com vocabulário."
— Compreender ou não, eles conhecem estas ruínas — disse Adnaan. — Não hesitaram, não afundaram e não esconderam a passagem.
Wener ajustou o escudo no braço.
— E sabem matar. Para mim, já basta.
Veecent apoiou Mantaster no ombro.
— Então não encontramos rastros. Encontramos um aviso escrito com seis dedos.
— Avisos também apontam direções — disse Adnaan, levantando-se.
Adnaan ergueu a mão.
Todos pararam.
Algo grande se movia sob a água.
Não era uma forma visível, mas uma ausência. A corrente mudava ao redor dela. Folhas flutuantes deslizavam contra o vento. Bolhas surgiam numa linha lenta, contornando o grupo por baixo da superfície. A criatura escolhera o centro da formação — o ponto onde M'uamba avançava atrás de Wener.
Adnaan já puxava a flecha.
— Protejam M'uamba!
A corda do arco vibrou.
A primeira flecha mergulhou na água escura antes que a criatura se revelasse. Por um instante, nada aconteceu. Então um clarão azul-violeta acendeu sob a superfície, desenhando a silhueta monstruosa escondida na lama. A eletricidade atravessou o corpo submerso, e a água ferveu ao redor do impacto.
Só então o pântano explodiu.
A criatura ergueu-se num jorro de água negra e vegetação rasgada. Era larga, baixa e pesada, uma massa de couro úmido sustentada por patas feitas para lama. Três bocas abriram-se em partes diferentes da cabeça, cada uma cheia de dentes curvos. Sacos translúcidos pendiam de seu pescoço e pulsavam como órgãos expostos. Lodo escorria do dorso. O fedor que trouxe consigo era de carne cozida, gás e charco profundo.
O Vadeador do Brejo de Muitas Bocas não chegou a completar a emboscada.
Adnaan já havia encaixado outra flecha. O segundo disparo atingiu o vadeador assim que toda a massa deixou a água. Eletricidade azul-violeta percorreu a criatura em veias luminosas. As três bocas gritaram em tons diferentes, uma sobre a outra, enquanto o impacto a empurrava para o lado.
O caçador não esperou a resposta. Deu um passo para trás e desapareceu dentro da sombra de um arco partido. Quando a criatura procurou a origem dos disparos, ele já não estava ali.
Wener avançou para ocupar o espaço entre o monstro e M'uamba.
O martelo saiu de sua mão com um estrondo. Girou sobre a água, envolto em raios roxos, e acertou o flanco da besta com um som de trovão preso entre as ruínas. Couro e carne cederam sob a cabeça quadrada. A arma retornou num arco impossível, fechando-se outra vez nos dedos do meio-gigante.
Garra da Noite permaneceu invisível perto da água, uma tensão silenciosa no elo entre os dois.
O vadeador avançou sobre Wener.
As três bocas atacaram quase juntas. A primeira encontrou o escudo e arrancou faíscas do metal. A segunda fechou-se onde o pescoço do meio-gigante estivera um instante antes. A terceira alcançou a lateral de sua armadura, dentes raspando placas bronzeadas antes de encontrar uma abertura estreita.
Wener grunhiu.
A mordida teria derrubado um homem menor. Nele, pareceu apenas uma ofensa.
— É só isso? — perguntou.
O pântano ao redor do monstro embranqueceu.
M'uamba ergueu as mãos atrás da guarda do meio-gigante, os olhos ardendo com fulgor arcano. O calor úmido foi arrancado do ar. Uma nevasca nasceu onde não deveria haver inverno: gelo cobriu a água, cristais subiram pelo couro do vadeador e a lama endureceu em torno de suas patas.
Por um momento, a criatura pareceu presa.
Então seus músculos se contraíram e partiram a crosta congelada. Placas de gelo saltaram para os lados.
M'uamba recuou, afastando-se da linha de frente sem baixar o cajado.
Veecent ocupou o espaço ao lado de Wener.
O guerreiro firmou as duas mãos em Mantaster e girou o grande machado. O golpe entrou no ombro do vadeador, abriu o couro espesso e continuou até a lâmina encontrar resistência no osso. Sangue quente e escuro espirrou sobre o gelo.
— Agora ele tem uma boca a menos para se preocupar — disse Veecent.
— Ainda tem três — observou Wener.
— Eu estava falando da ferida.
De uma sombra a vinte e oito passos dali, Adnaan reapareceu.
Estava ligeiramente mais próximo de M'uamba, mas fora do alcance imediato da criatura. Ajoelhou-se atrás de um fragmento de coral, prendeu a respiração e encontrou o corte aberto por Mantaster. O mundo ao redor perdeu importância. Restaram a ferida, o ritmo do corpo e o instante em que o vadeador apoiaria o peso sobre a pata dianteira.
A flecha elétrica entrou exatamente no talho.
O disparo desapareceu dentro da carne antes de explodir em luz. O vadeador arqueou o corpo, todas as bocas abertas, e uma fumaça fina subiu da ferida lacerada. A vitalidade da criatura vacilou sob o ataque conjunto, como se o golpe de Veecent tivesse viajado de novo pela flecha do caçador.
Wener aproveitou.
Seu martelo veio de cima e encontrou o dorso do monstro. O impacto afundou a criatura no gelo partido, expulsando água e ar de seus pulmões em três urros molhados.
Então os sacos em seu pescoço começaram a inflar.
Pahn-Tu percebeu a mudança primeiro.
"Afastem-se."
Tarde demais.
Os órgãos translúcidos cresceram até ficarem tensos, cheios de vapor luminoso. Assobios agudos escaparam pelas dobras do couro. As cabeças se ergueram na mesma direção, e o vadeador exalou.
O cone de vapor fervente varreu o pântano.
Gelo virou água num único suspiro. A névoa branca engoliu Wener e Veecent, bateu contra Pahn-Tu e alcançou M'uamba durante o recuo. O calor atravessou roupas, entrou pelas juntas da armadura e colou o ar nos pulmões. A pele exposta de Veecent avermelhou e abriu em bolhas. M'uamba perdeu a respiração. As cores da armadura viva de Pahn-Tu se agitaram numa onda frenética.
Wener permaneceu à frente.
Sua silhueta surgiu no vapor com o escudo erguido, placas fumegando.
Adnaan estava fora do alcance. A posição que escolhera preservou-o do jato, mas pelo elo sentiu Garra da Noite recuar do calor e ouviu o grito sufocado dos companheiros.
O vadeador investiu contra Veecent.
As três bocas buscaram braços, cintura e garganta, tentando prendê-lo para arrastá-lo à água. Gravemente queimado, o guerreiro desviou da primeira mandíbula e bateu o cabo de Mantaster contra a segunda. A terceira fechou-se sobre uma placa de sua armadura. Veecent girou o corpo, libertando-se antes que a criatura conseguisse imobilizá-lo, mas saiu do movimento com sangue escorrendo sob o metal.
M'uamba levantou o cajado.
O feiticeiro ainda tossia vapor. Seus braços tremiam, mas os olhos ardiam de raiva. O gelo falhara. O monstro resistira ao inverno impossível que ele criara no pântano.
Então M'uamba escolheu o contrário.
Uma esfera de fogo nasceu diante de sua mão.
Ela atravessou a bruma e explodiu contra o vadeador. O gelo restante desapareceu. Água e lama foram arremessadas em todas as direções, e o pântano inteiro pareceu inspirar chamas por um instante. O couro da criatura se abriu em placas negras; um dos sacos gulares rompeu com um estalo úmido, liberando vapor e sangue.
O vadeador cambaleou.
Veecent não lhe deu tempo para recuperar o equilíbrio.
Mesmo queimado, mesmo ferido, plantou os pés na lama e ergueu Mantaster com as duas mãos. O machado descreveu um arco amplo, concentrando todo o peso do guerreiro no fio. A lâmina entrou no corpo chamuscado, atravessou couro, músculo e osso, e saiu numa chuva escura do outro lado.
As três bocas se abriram.
Nenhuma produziu som.
O Vadeador do Brejo de Muitas Bocas tombou na água rasa, pesado o bastante para fazer as ruínas tremerem sob os pés do grupo.
O Vadeador do Brejo de Muitas Bocas emerge para atacar
Durante alguns segundos, ouviram apenas o chiado do vapor.
Wener foi primeiro até Veecent. A energia biopsiônica percorreu as mãos do meio-gigante e entrou no corpo queimado do guerreiro, fechando as lesões mais graves antes que a dor pudesse roubá-lo das pernas.
— Eu ainda estava de pé — disse Veecent, entre dentes.
— Eu sei. Continue — respondeu Wener.
— Pretendia — disse Veecent. — Só não prometo que a armadura venha junto. Acho que parte dela cozinhou em mim. Obrigado.
A última palavra saiu quase contrariada, fina demais para o corpo robusto que a pronunciava. Wener apenas assentiu, como se não precisasse de mais.
M'uamba observou os restos de gelo derreterem ao redor das botas.
— Da próxima vez, começo com fogo.
— Da próxima vez, comece com o que quiser — disse Wener. — Desde que continue atrás de mim.
M'uamba lançou-lhe um olhar cansado, mas sem hostilidade.
— Era justamente onde eu pretendia ficar.
Pahn-Tu limpou lama da armadura viva. As cores do coral assentaram-se aos poucos.
"Enfim, uma conclusão compatível com as evidências."
M'uamba virou o rosto para Pahn-Tu.
— Quando eu precisar de um comentário depois que o perigo passou, saberei onde procurar.
"Se tivesse procurado conhecimento antes do perigo, talvez não precisasse do comentário."
Wener terminou de fechar a pior queimadura de Veecent e se levantou entre os dois.
— M'uamba, você consegue andar?
— Consigo.
M'uamba observou as marcas fumegantes na armadura do meio-gigante.
— E você?
— Eu aguento.
Então Wener voltou-se para Pahn-Tu.
— Se não vai ajudar a tratar os feridos, não atrapalhe.
O Rhulisti encarou o meio-gigante.
"A suscetibilidade de vocês a palavras é quase tão grave quanto a suscetibilidade ao calor."
— E a sua incapacidade de ajudar continua sendo pior que as duas — respondeu M'uamba.
Adnaan e Veecent examinaram o cadáver.
— Três bocas, sacos de vapor e couro grosso — disse Veecent, ajoelhando-se junto à carcaça. — Alguma parte disso precisa pagar pelo trabalho.
Adnaan entregou-lhe a lâmina curta de extração.
— Devagar. Eu marco, você corta. Se pulsar, não fure.
— Como sempre — disse Veecent, aceitando a lâmina. — Você encontra a parte perigosa, eu descubro quanto ela vale.
"Vocês desmontam toda criatura que os ataca?" perguntou Pahn-Tu.
M'uamba examinou um fragmento de glândula preso à ponta da lâmina.
— Apenas as que podem financiar a próxima expedição para recuperar os seus laboratórios.
Pahn-Tu não respondeu. Veecent sorriu sem levantar a cabeça.
Não conheciam bem a anatomia da criatura. Encontraram glândulas ainda quentes, porções resistentes do couro e partes dos sacos que haviam produzido o vapor, mas muito se perdeu entre o fogo de M'uamba, o machado de Veecent e a própria falta de familiaridade. O que conseguiram extrair ainda valeria algum dinheiro. Em Athas, sobreviver a um monstro sem vendê-lo em pedaços era desperdiçar metade da vitória.
Garra da Noite voltou a aparecer perto de Adnaan, a pelagem úmida colada ao corpo. O caçador se abaixou até encostar a testa na dele.
— Ainda inteiro, irmão?
Pelo elo veio a lembrança do vapor, seguida pelo impulso firme de dentes, patas e vontade intactos. Garra devolveu a pergunta com uma imagem de Adnaan visto através de olhos amarelos.
— Eu também — respondeu o caçador. — Então seguimos juntos.
Passou a mão pela juba escura e se afastou do cadáver, com Garra da Noite ao lado.
Algo na água chamara sua atenção.
Não era movimento de animal. Era fluxo.
Uma corrente fina atravessava o pântano contra a inclinação natural do terreno. Folhas, sedimentos e pequenos filamentos orgânicos convergiam para uma fenda sob uma plataforma caída. Adnaan mergulhou a mão e encontrou uma superfície lisa demais para ser raiz, flexível demais para ser pedra.
— Aqui.
Pahn-Tu ajoelhou-se ao lado dele.
Seus olhos azuis se intensificaram. O tubo submerso pulsava muito devagar, contraindo-se ao sugar água e matéria dissolvida. Sob o limo, havia tons pálidos de coral vivo.
"Um conduto de alimentação."
Wener olhou para as ruínas ao redor.
— Alimentando o quê?
Pahn-Tu pousou a mão sobre a veia.
Por um instante, sua armadura e o tubo responderam um ao outro em cores semelhantes.
"O núcleo."
Kibb moveu-se no anel como vento voltando a uma casa abandonada.
"Mir-Sath ainda vive?"
Pahn-Tu não suavizou a resposta.
"Uma parte dela se recusa a morrer."
— Isso basta para salvá-la? — perguntou Wener.
"Salvar é uma palavra imprecisa. Pode haver tecido viável, memória funcional ou apenas reflexos de alimentação."
M'uamba se agachou junto ao conduto, atento ao ritmo das contrações.
— Se ainda regula a entrada de nutrientes, existe organização. Um cadáver não escolhe o que bebe.
Pahn-Tu avaliou o feiticeiro como um mestre impaciente diante de um aprendiz que enfim alcançara o óbvio.
"Uma dedução básica, mas correta."
Veecent passou o polegar pela lâmina de Mantaster, limpando um resto escuro do vadeador.
— Então seguimos a garganta até o estômago e perguntamos ao estômago se ele ainda é uma cidade.
— Seguimos sem cortar nada — disse Wener.
— Eu entendi a parte importante.
No anel, a voz de Kibb ganhou força.
"Sigam. Por favor."
Era o bastante.
Adnaan pousou a mão na lateral do pescoço de Garra da Noite.
— Vamos descobrir o que ainda respira aqui, Garra.
Os dois seguiram a corrente.
A veia aparecia e desaparecia sob água, lama e placas de coral. Às vezes se dividia em filamentos menores; às vezes mergulhava tão fundo que o caçador precisava procurar apenas os sinais de sua passagem — plantas mais altas, água empobrecida, manchas de limo pálido sobre as pedras.
O terreno tornou-se mais seco à medida que avançavam. As ruínas se adensaram ao redor de pequenas ilhas de pedra, e as sombras do fim da tarde alongaram-se entre arcos tombados.
Foi numa dessas ilhas que Adnaan viu as placas.
Eram pedras chatas dispostas num padrão preciso. Entre elas, cajados finos sustentavam esferas de obsidiana que se moviam sem toque, traçando diagramas arcanos sobre a superfície. Linhas de luz apareciam e desapareciam conforme as esferas giravam. Em torno de toda a ilha havia um círculo de cinzas, negro e limpo demais para ser resto de fogueira.
Adnaan não se aproximou.
— M'uamba.
O feiticeiro veio até a margem. Bastou olhar para que sua exaustão cedesse lugar à fome de compreensão.
— Você me chama quando encontra perigo ou quando encontra algo que quer abrir — disse M'uamba.
— Desta vez, os dois.
Adnaan indicou o círculo de cinzas, os cajados e as linhas de aproximação entre as paredes tombadas.
— Veecent, cubra a passagem seca. Wener, fique entre ele e a água. Garra...
O zhackal já se movia.
— A margem, irmão — concluiu Adnaan. — Se sentir alguma coisa, me chama.
Pelo elo veio a concordância imediata. Garra da Noite não recebia a ordem como um animal adestrado, mas como a outra metade da caçada.
Veecent olhou para o mecanismo.
— E M'uamba?
— M'uamba vai fazer o que sabe. Nós garantimos que ele termine.
O feiticeiro passou por ele.
— É reconfortante ser compreendido.
Adnaan desapareceu numa sombra e ressurgiu no alto de um bloco de coral quebrado, arco em mãos. Dali observava a ilha, a água e as passagens entre as ruínas. Garra da Noite voltou a sumir perto da margem.
M'uamba entrou no círculo.
Ajoelhou-se diante de uma das placas e acompanhou com os olhos o desenho produzido pela esfera de obsidiana. Os símbolos não eram Rhulisti. Havia brutalidade na organização, uma eficiência obtida sem qualquer respeito pelo que existira naquele solo antes da magia.
Ele tocou as cinzas.
A matéria se desfez entre seus dedos.
— Feitiçaria destrutiva — disse. — Absorveram a energia de tudo que estava vivo ao redor. Não se preocuparam com o que a extração destruiria.
Pahn-Tu encarou o círculo morto.
"A fome do Arauto ensinada a animais."
Wener olhou para o círculo de cinzas.
— Isso matou tudo aqui para fazer o mecanismo funcionar?
— Não para fazê-lo funcionar — respondeu M'uamba. — Para alimentá-lo. A diferença importa para quem pretende desmontá-lo sem repetir o processo.
"Um mecanismo grosseiro," julgou Pahn-Tu. "E ainda assim superior à maior parte da feitiçaria desta era."
— Grosseiro, superior e portátil — disse M'uamba.
A ironia não escondia o desconforto. O feiticeiro conhecia intimamente demais a fronteira entre usar o mundo e consumi-lo, mas as esferas de obsidiana já haviam capturado toda a sua atenção.
— O mecanismo é valioso — disse ele.
— Quanto tempo, M'uamba? — perguntou Adnaan do alto.
M'uamba examinou os encaixes.
— O bastante.
— Isso não é tempo.
— Cinco minutos, se ninguém me interromper. Dez, se Pahn-Tu continuar explicando por que faria melhor.
"Eu faria."
Veecent tomou posição diante da passagem seca.
— Então ficamos com cinco. Pela primeira vez, a arrogância dele está economizando tempo.
— Você tem cinco — disse Adnaan. — Nós seguramos o terreno.
Wener manteve o escudo voltado para a água.
— Pegue apenas o que puder carregar sem atrasar a marcha.
M'uamba pousou a mão sobre a primeira esfera de obsidiana.
— Eu sei, Wener. Tudo que vale a pena carregar atrasa a marcha.
— Então escolha o que vale o atraso.
Começou a desmontá-lo.
Retirou primeiro uma esfera, depois os encaixes dos cajados e as placas menores. Cada peça guardada fazia cessar uma parte do diagrama, até que as linhas de luz se reduziram a fragmentos sem sentido. O círculo de cinzas permaneceu ao redor dele como a marca de uma boca.
O mecanismo arcano encontrado entre as ruínas
No alto, Adnaan vigiava.
Seus sentidos atravessavam a névoa. Percebia a água sob as pedras, os movimentos invisíveis de Garra da Noite, a respiração pesada de Veecent e o metal de Wener deslocando-se atrás de M'uamba. O pântano inteiro se apresentava a ele em formas, cheiros e distâncias.
Ainda assim, não percebeu os donos do mecanismo.
Entre os restos de Mir-Sath, além do círculo de cinzas, grandes pés de seis dedos avançavam sem perturbar a lama.
Uma sombra ergueu um cajado de obsidiana.
Outra tomou posição atrás de uma parede caída.
E, enquanto M'uamba guardava a última esfera, a feitiçaria começou a beber o pântano ao redor deles.
Notas de Rodapé:
- A população de Mir-Sath pode ter evacuado antes da queda da cidade; a ausência de corpos entre os destroços devolveu alguma esperança a Kibb.
- Rastros de humanoides com seis dedos foram encontrados nas ruínas. Eles correspondem às criaturas dotadas de feitiçaria instintiva que atacaram o grupo na entrada da Pirâmide Invertida.
- O pântano abaixo das escarpas foi alterado por feitiçaria ligada ao legado do Arauto da Guerra e não é inteiramente natural.
- Um conduto biotécnico ainda suga água e nutrientes do pântano, indicando que parte do núcleo de Mir-Sath permanece viva.
- O grupo encontrou e começou a desmontar um mecanismo arcano cercado por cinzas de feitiçaria destrutiva, sem perceber a aproximação de seus proprietários.



